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16/11/2009 - A GAZETA ES
Nota boa no Enem vai muito além do esforço pessoal
O esforço pessoal não é a única característica que conta pontos no Exame Nacional do ensino médio (Enem). Um estudo do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) revela que as condições socioeconômicas interferem diretamente no desempenho dos estudantes

Carla Nascimento
cnascimento@redegazeta.com.br

O esforço pessoal não é a única característica que conta pontos no Exame Nacional do ensino médio (Enem). Um estudo do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) revela que as condições socioeconômicas interferem diretamente no desempenho dos estudantes.

Entre os itens avaliados, o que mais chama a atenção é a Escolaridade da mãe. A cada ano de estudo adicional da mãe, o aluno tem, em média, 7 pontos a mais na nota objetiva. A renda da família e o fato do estudante ser de Escola particular também influenciam positivamente nas notas.

"A primeira surpresa foi a Escolaridade da mãe interferir mais no resultado do que o nível de renda da família. A hipótese por trás disso é que a mãe com boa Escolaridade dá valor à Educação. Então, ela estimula o filho, cobra e participa", afirma a diretora-presidente do instituto, Ana Paula Vitali Janes Vescovi.

Mas essa não foi o único dado inesperado. A pessoa que estuda e trabalha perde, em média, 1,5 pontos na nota objetiva do Enem. Já quem tem filhos perde 1,1 pontos. "O fato do aluno trabalhar atrapalha mais do que ter filhos. Mas isso tem que ser olhado da seguinte forma: entre só trabalhar e só estudar, é melhor só estudar. Mas se o aluno precisa da renda para garantir a sobrevivência, ele deve trabalhar e estudar", opina.

Estudo

A diretora-presidente explica que a intenção inicial do estudo era traçar uma relação entre o desenvolvimento dos municípios que apresentaram bons desempenhos com a qualidade da Educação. No entanto, os números de cada localidade não foram suficientes para isso. A solução foi partir para análise das características dos indivíduos.

A metodologia utilizada permite ainda estender os resultados para os alunos do ensino médio que não participaram do Enem. "A crítica que poderiam fazer é que nem todos os que fazem o Enem representam o universo de estudantes nessa faixa etária. Isso porque eles fazem o exame com um propósito, partir para uma bolsa de estudos ou fazer o vestibular. Portanto, aplicamos uma metodologia estatística para corrigir o que chamamos de viés de seleção. Ela mostra que praticamente todos os dados se confirmam", diz Ana Paula.

Além de boas Escolas, muitas horas de estudo

Daniela Alves Nemer, 19, faz parte do grupo de alunos que tiveram nota considerada boa ou excelente no Enem 2008. Ela acertou mais de 80% da prova objetiva e da redação. O bom desempenho no exame se repetiu no vestibular da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), e ela conquistou uma vaga no curso mais disputado: Medicina. A seu favor, Daniela tem algumas das características constatadas como positivas pelo estudo do Instituto Jones dos Santos Neves.

Sempre estudou em Escolas particulares, vem de uma família pequena - com quatro pessoas - e é filha de uma médica com pós-graduação. Mas sua situação socioeconômica não merece todo o mérito. A jovem lembra que estudava durante o período da manhã e da tarde na Escola e continuava os estudos até altas horas da noite, em casa. "No primeiro semestre chegava a estudar até as 2 horas da madrugada, todos os dias. Mas, depois, tive que diminuir o ritmo, porque estava muito cansada. Ainda assim, estudava cerca de cinco ou seis horas por dia em casa", lembra a jovem.

Saiba mais

Como será o exame neste ano: O Enem terá 180 questões e será dividido em quatro áreas: Ciências Humanas, Ciências da natureza, Linguagens e Códigos e Matemática

Provas: As provas serão aplicadas nos dias 5 e 6 de dezembro. O horário de realização será: das 13h às 17h30 no dia 5, sábado, quando serão aplicadas duas provas (Ciências Humanas e da Natureza). No domingo, dia 6, o período de duração será maior, pois além de outras duas provas (Linguagens e Matemática), será aplicada a redação. O início será às 13h; e o término, às 18h30
Ufes: A Ufes vai utilizar o exame em substituição à primeira etapa do vestibular
Outras universidades: Mais de 40 universidades decidiram utilizar o Enem no processo seletivo, ou como parte da seleção ou em substituição a todo o processo
Inscritos: Em 2009, foram mais de 4,1 milhões de inscritos. Só no Espírito Santo o número de estudantes que vão prestar o exame chega a 107 mil
Locais de prova: A prova será aplicada em mais de 113 mil salas por todo o Brasil e em 1.829 municípios brasileiros. Os locais de prova podem ser conferidos no site www.enem.inep.gov.br

Ponto de vista
Futuro

"É um recado"

Acho esse destaque da Escolaridade da mãe fantástico! Isso serve como recado para a sociedade. Os pais têm que melhorar a formação, porque isso repercute diretamente sobre os filhos. Jean Piaget, conhecido por estudos na área de desenvolvimento cognitivo, diz que um meio adulto com baixa operatividade intelectual prejudica a criança. Isso nos faz pensar: Se o meio adulto tem um trânsito intelectual maior, qual o impacto nas crianças? A pesquisa mostra que a formação da mãe incide diretamente. Além disso, a renda familiar mais alta possibilita o acesso aos meios de comunicação. O fato de frequentar uma Escola particular, que oferece mais recursos, também permite as condições para o desenvolvimento. Mas é preciso saber que o processo de estimulação pode funcionar ou não. Depende se o aluno assimila, ou seja, se ele dá valor ao conteúdo que está sendo apresentado a ele. Têm alunos que mesmo com todas as condições favoráveis não reage. Sempre usamos a estimulação como explicação para o desempenho, como se o fator genético fosse de menor importância. Mas, na verdade, não dá para se basear apenas em fatores genéticos ou na estimulação. O encontro da hereditariedade com o estímulo do meio, chamado interação, é o que conta.

Fernando Becker professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutor em Psicologia Escolar

Desigualdade

“Belíndia brasileira"

Esse estudo do Instituto Jones dos Santos Neves é mais uma fotografia da "Belíndia" brasileira. alunos de famílias com melhores condições financeiras estudam em Escolas privadas, frequentam o ensino superior público e certamente terão boa renda no futuro. O processo de desigualdade brasileira se mantém. Porque Educação gera renda, mas renda também gera a Educação. A Fundação Getúlio Vargas também têm estudos que avaliam a Educação. Em um deles, foi constatado que numa escala de 0 a 10, a nota média de uma Escola privada é 6 e a de uma Escola pública é 3,3 do Ideb. Mas discordo de alguns itens. O tempo de permanência na Escola de uma menina de 15 a 19 anos com filhos é de um terço, se comparado com as colegas. Essa menina, que não vai à aula não chega a fazer o Enem e não é avaliada. Aquelas que estão na aula são guerreiras, mas são poucas. A grande maioria são obrigadas a abandonar a Escola. Essa análise do Enem avalia aqueles que chegaram no ensino médio e querem entrar numa universidade. É uma amostra dos vencedores. Nela é possível separar quem é melhor ou pior. Mas eu diria que é o equivalente à primeira divisão. Existe ainda a segunda, terceira, a quarta e a quinta divisão.

Marcelo Neri Economista e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), do Rio de Janeiro


   

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