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Tempo de aula desperdiçado

08 de abril de 2013
Estudo revela que professores do Rio gastam um terço do horário em sala com atividades não acadêmicas

Fonte: O Globo (RJ)




Fazer a chamada, apagar o quadro, distribuir deveres de casa ou arrumar a sala estão entre práticas que fazem os Professores no Brasil perder tempo precioso de atividades pedagógicas. Para investigar minuto a minuto o que acontece durante as aulas, a Secretaria estadual de Educação, em parceria com o Banco Mundial, lançou mão de uma pesquisa inédita para saber como os Professores administram o período ao lado dos Alunos. Os números levantados em 60 Escolas da rede fluminense demonstram que o aproveitamento para Ensino efetivo está bem abaixo do ideal, não ultrapassando 64%. Segundo estudo do Banco Mundial, essa média está longe da dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em que 85% do tempo é utilizado somente para atividades de aprendizagem.

O cotidiano Escolar foi observado, em novembro de 2012, em duas regionais: São Gonçalo e Região Serrana. A primeira ficou em segundo lugar no Índice da Educação básica do Rio de Janeiro (Iderj) de 2011. Já os colégios de São Gonçalo tiveram pior desempenho, ficando em oitavo lugar no Iderj. Em termos práticos, se for considerado o período de hora-aula de 50 minutos, as Escolas pesquisadas gastam quase 20 minutos com tarefas burocráticas ou tentando disciplinar a turma. Em relação ao tempo dedicado a atividades acadêmicas, o Brasil está à frente de México, Peru, República Dominicana e Jamaicana e no mesmo nível de Honduras. Mas o país fica atrás da Colômbia e muito distante do patamar considerado ideal.

Em 2010, a prefeitura realizou um levantamento semelhante, também em parceria com o Banco Mundial, e que mostrou diferenças mais significativas. Nas Escolas do município com melhor resultado no Índice de Desenvolvimento da Educação básica (Ideb), 70% do tempo é utilizado com atividades de aprendizagem, enquanto nos colégios que obtiveram pior desempenho só 54% da aula são dedicados ao Ensino.

Coordenado por Barbara Bruns, economista principal do Banco Mundial para Educação na América Latina, o trabalho usou o chamado "método Stallings" para observação de sala de aula. Daniela Ribeiro, assessora de planejamento da Secretaria estadual de Educação, explica que 23 coordenadores pedagógicos passaram por um treinamento de 40 horas. Antes de entrar em sala, cada pesquisador recebeu uma ficha e, em dez observações de 15 segundos (espaçadas por 50 minutos), quantificou o tempo que o Professor usou em atividades acadêmicas, de administração da sala ou fora dela.

- Também são levados em consideração os materiais empregados e se a turma inteira está envolvida. Percebeu-se, por exemplo, que as Escolas serranas tem um emprego maior de materiais de tecnologia de informação do que as de São Gonçalo, cujos Professores usam mais o quadro negro. Talvez isso seja um indício que mostre que o uso da tecnologia pode servir para melhorar tanto o Ensino quanto o desempenho do Aluno. Políticas públicas de Educação podem ser modificadas a partir dos resultados levantados por essa pesquisa - afirma Daniela.

Lei prevê carga mínima de 800 horas por ano
Uma das classes observadas pelos pesquisadores da Secretaria estadual de Educação foi o 1º ano do Ensino médio do Ciep Palhaço Carequinha, em São Gonçalo. Professora de Língua Portuguesa e Literatura da turma, Raquel Danielli Mota reconhece que administrar os 50 minutos de aula está longe de ser uma tarefa fácil:

- A questão é maior do que parece. Para começar as atividades pedagógicas, o Professor perde, em média, 25 minutos esperando a turma entrar na sala. Não temos pessoal de apoio suficiente, como inspetores, para controlar os estudantes. E temos que ensinar, além da matéria, a maneira de se comportarem. Os Alunos da rede pública entendem a Escola como uma área de lazer. É uma questão social e não pedagógica. Trabalhamos em áreas carentes e fazemos o que podemos com o que temos - diz Raquel.

O subsecretário estadual de Gestão de Ensino, Antonio Neto, explica que, a partir dos dados, a estratégia é otimizar o tempo em sala de aula:

- A gestão do Ensino passa pela racionalização. Essa pesquisa levantou perfis. Estamos na fase de avaliação do diagnóstico. Depois do cruzamento dos resultados, vamos traçar metas.

Para Priscila Cruz, diretora-executiva do Movimento Todos Pela Educação, a curta carga horária nas Escolas públicas e particulares é uma questão-chave a enfrentar no país. A lei determina um mínimo de 800 horas, a serem distribuídas em 200 dias, o que resulta em, pelo menos, quatro horas diárias de trabalho Escolar:

- Nos países no topo do Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa), programa internacional mais abrangente de mensuração da qualidade educacional, os estudantes ficam muito mais tempo na Escola. No Brasil, o ideal seria um turno de, no mínimo, sete horas.

Mas, mesmo sem mudanças à vista na carga horária dos estudantes brasileiros, Priscila acredita que os Professores têm condições de administrar melhor o tempo que têm hoje:
- O Professor tem, sim, que apagar quadro e fazer chamada. Não adianta querer racionalizar 100%. Mas, no Brasil, existe uma certa flexibilização tanto por parte de Professores quantos dos estudantes. Toda Escola precisa ter normas e rotinas para funcionar. Então, não dá para o Professor liberar a turma antes da hora ou aceitar o retorno demorado do recreio. Os Alunos também devem fazer a sua parte. É possível chegar aos 85% relacionados às boas práticas de Ensino.
No Brasil, o projeto financiado pelo Banco Mundial acontece desde 2009. Já foram avaliadas 600 Escolas de Minas Gerais; 300 de Pernambuco; e 100 do município do Rio.

 

Qualificação docente é o fator que mais afeta desempenho
A valorização da carreira e o investimento numa formação melhor para os Professores são os caminhos apontados pela pesquisadora mineira Raquel Guimarães para melhorar o desempenho dos Alunos brasileiros. Doutoranda em Demografia no Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), na Universidade Federal de Minas Gerais, Raquel investigou - durante o mestrado na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos - quais fatores mais influenciavam o desempenho em sala de aula.

A partir de questionários respondidos por Professores e dados do Programa Plano de Desenvolvimento da Escola e do Sistema de Avaliação da Educação básica, que avaliou estudantes do 5º ao 9º ano do Ensino fundamental da rede pública, entre 1999 e 2003, a pesquisadora analisou Escolas com indicadores educacionais precários em seis estados: Rondônia, Pará, Pernambuco, Sergipe, Mato Grosso do Sul e Goiás.

Em seu trabalho, Raquel avaliou o desempenho de 1.200 Alunos em português e matemática e comparou com as características de seus 581 Docentes.

- Utilizamos um método estatístico que calculou o efeito médio no desempenho do Aluno de acordo com a "qualidade do Professor". A ideia foi simular um modelo de dose-resposta da medicina e saúde pública ao contexto educacional, em que as doses (qualidade do Professor) são ministradas aos pacientes (Alunos) para se verificar a resposta à doença (performance na prova) - explica Raquel, que apresentou este trabalho como dissertação de mestrado em 2012.

Os resultados foram estatisticamente significativos somente para Matemática e revelaram que a cada aumento de uma unidade no índice de qualificação do Professor (que variou entre 0 e 10), o ganho de aprendizado do estudante entre o 5º e 9º ano aumentou em média em 3%.

Para Raquel, pode-se dizer que um bom Professor resulta de um conjunto mínimo de condições. Em primeiro lugar, deve-se garantir boa formação em termos do conteúdo da disciplina que irá ministrar:

- Parece óbvio, mas é muito importante que, por exemplo, um Professor de matemática do 9º ano do Ensino fundamental tenha um bom domínio da matriz de conteúdos referentes àquele ano. Para tanto, são necessários investimentos na formação continuada dos Professores e também na adequação do conteúdo visando uma boa formação dos candidatos à Professores enquanto eles ainda estão na graduação - diz.

Na opinião de Raquel, é fundamental que os Professores tenham, pelo menos, o mínimo de qualificação:
- Todos os Professores deveriam ter o nível superior completo, além de serem incentivados a complementar sua formação por meio de cursos de especialização, de treinamento, ou mesmo através da pós-graduação (stricto ou lato sensu).


64%
É a porcentagem do tempo de aula de fato dedicado ao aprendizado nas Escolas do Rio, segundo estudo do Banco Mundial e da Secretaria estadual de Educação. Nos países da OCDE, essa média é de 85%.  


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Aí entra a educação do aluno. Independente se haverá uma aula com violão, teatro e outras tecnicas ou uma aula GLS tradicional, este deve participar. Recebo alunos que os pais sequer observam a mochila pela manhã ou a noite(falta tudo) e convenhamos, haja convencimento por parte do docente, o que já toma tempo.

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