O risco da creche de má qualidade

27 de maio de 2013
Estudo aponta impacto negativo de instituições desestruturadas sobre o desenvolvimento das crianças

Fonte: O Globo (RJ)




Nem sempre as crianças que frequentaram Creches terão resultados Escolares melhores no futuro do que aquelas que não tiveram esta oportunidade. Se a Creche não for de qualidade, o desempenho dos estudantes pode ser, inclusive, pior do que o alcançado por Alunos que não frequentaram essas unidades. A conclusão é de um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Organização das Nações Unidas (ONU).

Especialistas analisaram as notas de matemática de crianças da 4ª série que participaram do Sistema de Avaliação de Educação básica (Saeb), em 2005, levando em consideração também a Escolaridade das mães. O objetivo era saber se ir à Creche trazia resultados positivos para as crianças. Eles perceberam que, entre os filhos de mães com baixa Escolaridade, os que frequentaram Creches tiveram resultado pior no Saeb do que os que não frequentaram. O impacto positivo nas notas dos Alunos só ocorreu nos casos em que as mães das crianças estudaram pelo menos até os últimos anos do Ensino fundamental.

Segundo Daniel Santos, Professor de Economia da USP e um dos autores da pesquisa, uma das principais hipóteses para explicar o resultado é a baixa qualidade das Creches escolhidas por mães com menor Escolaridade.

- Acredito que a criança estimulada desde bem pequena tem resultado melhor. A questão é saber se a criança foi realmente estimulada. Muitas vezes, as Creches são depósitos delas, não estão prontas para estimular as crianças - afirma Santos.

De acordo com o especialista, a preocupação com o estímulo ao aprendizado nas Creches é recente, pois somente em 2006 elas passaram a integrar o sistema educacional. Antes, segundo ele, as instituições faziam parte da estrutura de assistência social e serviam apenas para alimentar, garantir a saúde das crianças e permitir que as mães pudessem trabalhar.

- Estamos num momento de transição. Grande parte das Creches ainda está no modelo antigo. Talvez a maioria delas ainda não dê estímulo às crianças. E o problema é que a chance de uma criança ir para uma Creche assim, sem estímulo, é maior entre os filhos de mães analfabetas. O mecanismo que deveria ser corretor de desigualdade acaba não sendo - diz Santos.

Na Inglaterra, um estudo de pesquisadores da Universidade de Londres e de Oxford chegou a resultados semelhantes. Os autores acompanharam um grupo de 3.000 estudantes, desde sua entrada na Pré-Escola até os 11 anos de idade. Eles também avaliaram 141 Pré-Escolas britânicas, e, após observações in loco , dividiram os estudantes entre aqueles que tiveram acesso a uma Pré-Escola de qualidade e os que não tiveram essa sorte. A conclusão foi que a qualidade da Pré-Escola era um forte indício do desempenho Escolar e comportamental dos estudantes. Mais importante: crianças que frequentaram Pré-Escolas de baixa qualidade não apresentavam ganho algum, se comparadas àquelas que sequer chegaram a frequentar Escolas na primeira infância.

Segundo a ONG Campanha Nacional pelo Direito à Educação, o gasto com Creche no Brasil é menor do que o recomendado para que elas atendam a requisitos mínimos de qualidade. Dados aferidos em 2012 pela organização comprovam que uma Creche de período integral deve investir, por ano, R$ 8.804 por Aluno matriculado, para oferecer profissionais qualificados, espaço físico e materiais apropriados. No entanto, os gastos com Creche e Pré-Escolas informados pelo governo brasileiro à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi de US$ 1.696 (ou R$ 3.475, segundo a cotação atual). O valor deixa o país na terceira pior posição num ranking de 34 países.

De acordo com o Ministério da Educação, o valor mínimo que deveria ser investido por Aluno, em 2013, é de R$ 2.221,73.

- O Brasil não percebe o quão importante é a Educação infantil, e investe pouco. O direito à Educação só é pleno quando alia acesso à qualidade. O direito à Creche, que envolve o direito à Educação da criança e o direito da família ao trabalho, por exemplo, é um elemento-chave para a qualidade de vida - disse Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

Na opinião de Patrícia Mota Guedes, especialista em gestão educacional da Fundação Itaú Social, é preciso investir em qualificação e formação de profissionais que trabalham nas Creches, que, muitas vezes, não têm a Escolaridade indicada. Ela acrescenta que orientar o pais também é importante.

- Para pais de mais baixa Escolaridade e em situação mais vulnerável, é difícil fazer escolhas sobre a Creche e avaliar a qualidade do serviço a que eles têm acesso. Pais menos Escolarizados muitas vezes acham que, se a Creche cuida da criança e a mantém saudável, isso significa que há qualidade - analisa Patrícia.

No Rio, a prefeitura tem construído Creches mais bem equipadas e com proposta de trabalho mais bem definida para crianças de regiões mais pobres e mais violentas na cidade. No final de 2009, começaram a ser construídos os Espaços de Desenvolvimento Infantil (EDI), que são mais amplos, têm melhor estrutura para atendimento e mais livros para crianças de 6 meses a 5 anos de idade. A fim de estimular mais os pequenos, os berços deram lugar a pisos onde eles podem dormir, brincar e aprender por meio de atividades lúdicas. A capital tem hoje 108 EDIs, com cerca de 150 Alunos, em média. A meta é construir outras 31 unidades até o fim do ano.

- Além disso, passamos a orientar os Educadores a fazerem uma reserva de tempo para desenvolver atividades como ler histórias, folhear livrinhos e trabalhar com materiais com formas geométricas, por exemplo. Tem que haver essa reserva, senão o risco é que se gaste o tempo todo cuidando do bebê sem colocar o ato de educar junto - explica a secretária municipal de Educação do Rio, Claudia Costin.

 

Nos EUA, mais incentivo para aumentar o vocabulário
Para que as crianças cheguem ao primeiro dia de pré-escola conhecendo um número adequado de palavras, a prefeitura de Providence, capital do estado americano Rhode Island (EUA), recorrerá à tecnologia. O município concederá às famílias de renda baixa um equipamento que mede a quantidade de palavras ouvidas pelas crianças e treinará os pais a estimular seus filhos. A intenção é que o vocabulário dos pequenos seja desenvolvido antes do início do período escolar.

Batizada de "Providence Talks" (ou "Providence Fala", em português), a ideia foi a grande vencedora de uma competição que premia boas ideias de prefeitos americanos, promovida pela Bloomberg Philanthropies, entidade do bilionário e prefeito de Nova York Michael R. Bloomberg. Com o prêmio de US$ 5 milhões, a prefeitura pretende fornecer um equipamento às famílias mais carentes e orientá-las periodicamente. O "gravador de palavras" ficará afixado nas roupas das crianças de até 4 anos de idade e é capaz de diferenciar a voz humana de sons da televisão.

Segundo estudos americanos de pesquisadores da Universidade de Kansas e da fundação LENA (sigla de Análise de Linguagem Ambiental) que embasaram o projeto, quando crianças que vivem com famílias com renda mais baixa completam 4 anos, elas terão escutado 30 milhões de palavras a menos do que seus pares de classe média ou alta. O ideal é que elas escutem cerca de 21 mil palavras por dia para que o vocabulário se desenvolva em um ritmo apropriado.

— Na cidade de Providence, dois terços das crianças começam o primeiro dia da pré-escola sem o nível adequado de aprendizado. Queremos mudar isso — disse Toby Shepherd, vice-diretor de Política da prefeitura de Providence.

Especialistas afirmam que, quanto mais cedo os pais conversarem com os filhos, mais elas serão estimuladas a desenvolverem seu vocabulário, mesmo que não compreendam o que está sendo ouvido.

— Os pais devem brincar com as crianças promovendo interação com os brinquedos, descrevendo as ações que acontecem, dizendo por exemplo "caiu", "subiu", "apareceu". E devem induzir as crianças a repetirem essas palavras, além de olharem para elas, fazer gestos e expressões faciais enquanto falam e dar entonação à voz para chamar os filhos e engajá-los — diz Fernando Cesar Capovilla, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

Para a professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB) Maria Fernanda Farah Cavaton, os pais também devem escutar os filhos.

— Ao escutarem a criança, eles percebem o que ela sabe e vão regulando a fala. Não é um monólogo, tem que ser um diálogo — afirma Maria Fernanda.

Segundo o professor de Neurologia Infantil da Faculdade de Medicina da USP Saul Cypel, é preciso estimular adequadamente as crianças no período certo, sob o risco de elas desenvolverem vocabulário pior e terem dificuldades na alfabetização.

— Em geral, famílias com renda menor tendem a não usar o nome adequado dos objetos, falando "pega essa coisa", "deixa essa coisa", invés de usar o nome correto. Se o vocabulário da criança fica muito aquém do desejado e não desenvolver características mais refinadas, quando ela chegar aos 8 ou 9 anos de idade será uma pessoa mais ingênua, imatura — diz Cypel.

 

No Rio Grande do Sul, rede inclui famílias na formação
Criado em 2003 por meio de uma portaria da Secretaria de Saúde, o Programa Infância Melhor (PIM) criou uma rede de atendimento nos municípios gaúchos centralizada na figura do visitador — um técnico remunerado e especialista em atendimento infantil. Cada técnico atende, em média, 25 famílias.

De acordo com a coordenadora-geral do programa, Liese Serpa, o PIM tem como foco crianças de zero a 6 anos, mas a ênfase é no público de até 3 anos de idade. A ideia é promover o desenvolvimento integral da criança, tanto no aspecto físico quanto no intelectual. Também atende gestantes em condições de vulnerabilidade social.

— Nosso maior objetivo é fortalecer as competências da família como primeira e mais importante instituição de cuidado nos primeiros anos da infância — disse Liese.

O PIM foi regulamentado há cinco anos. Porém, apesar de a lei que instituiu o programa determinar sua organização em todos os 497 municípios do estado, está presente em apenas 254 cidades. Hoje, conta com o trabalho de 2.382 visitadores em atendimento a mais de 47,5 mil famílias, 7.000 gestantes e 52 mil crianças. A bolsa-auxílio dos visitadores é de meio salário mínimo (R$ 340) para uma jornada de 20 horas semanais. O valor é repassado às prefeitura pelo governo estadual.

A experiência da Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul com o PIM também serviu de referência para a implantação de um programa de visitas domiciliares semelhante em território nacional, vinculado ao programa Brasil Carinhoso.

O PIM foi tornado política pública oficial no Rio Grande do Sul em 2006.
 


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