Professores no fogo cruzado

03 de outubro de 2013
Em meio a protestos e repressão, plano de cargos e salários da categoria deve ser votado hoje

Fonte: O Globo (RJ)




Não bastassem os dias sem aula dos estudantes da rede municipal, o impasse envolvendo a greve dos Professores e o novo plano de cargos e salários da categoria parece caminhar para parar o Legislativo do Rio. Depois de um fim de semana com a retirada à força de profissionais da Educação que ocupavam o plenário, ontem até a imprensa foi impedida de entrar no Palácio Pedro Ernesto pela administração da Casa.

Hoje, a base do governo espera votar o projeto do plano, já com 29 emendas, e o presidente da Câmara, Jorge Felippe (PMDB), admite que terá de contar com o apoio da polícia para que vereadores possam entrar para votar. Ele afirma ainda que será analisado se o acesso do público às galerias será liberado ou se os trabalhos serão realizados a portas fechadas. Ontem, houve novos confrontos, e a PM chegou a usar spray de pimenta para dispersar os manifestantes.

O clima esteve tenso desde o início da manhã. Policiais montaram um cordão de isolamento no entorno da Casa, liberando a entrada apenas para funcionários e vereadores. Em resposta, alguns manifestantes também hostilizaram funcionários que tentavam entrar para trabalhar. No fim da tarde, alguns vereadores saíram, sendo cercados pela multidão. Paulo Messina (PV) foi atingido por chutes, garrafas de plástico e café quente. À noite, ele foi à delegacia registrar as agressões.

Também à noite, mais de mil pessoas tomaram conta dos arredores da Câmara. Aos Professores, somou-se um grupo de black blocs. A Avenida Rio Branco e a Rua Evaristo da Veiga chegaram a ser fechadas durante cerca de meia hora. O episódio da retirada dos Professores no fim de semana, que acirrou mais os ânimos, ganhou justificativas diferentes. Jorge Felippe, que na quinta-feira passada havia garantido em entrevista coletiva que não usaria de violência, disse que a atitude foi necessária para retomar as atividades:

- Ao contrário do protesto que ocorreu na CPI dos Ônibus, em que os manifestantes deixavam o plenário para realizarmos as sessões e depois voltavam, isso não ocorreu dessa vez. Tivemos, por exemplo, que suspender uma audiência pública na sexta-feira. Os manifestantes estão tendo atitudes fascistas e antidemocráticas.

Prefeito defende desocupação da Câmara
O coordenador do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (Sepe), Alex Trentino, disse, por sua vez, que a entidade não foi chamada para conversar:

- O presidente não nos chamou para discutir a ocupação. Nosso diálogo foi diretamente com a polícia. A retirada foi feita de forma ilegal, sem haver sequer uma autorização judicial.

Ontem, em entrevista ao "RJ-TV", o prefeito Eduardo Paes defendeu a ação de retirada dos Professores, no sábado, e afirmou que já se reuniu diversas vezes com a categoria. À noite, ele promoveu um debate pela internet, onde respondeu a dúvidas de Docentes.

- Ninguém está de acordo que se interrompa uma sessão com violência. O parlamento é um espaço de discussão, não acho que seja adequado ocupar a Câmara. A desocupação do plenário foi necessária, a PM agiu corretamente. Não houve qualquer tipo de problema lá dentro. Lá fora, havia outras pessoas, além de Professores - disse o prefeito.

Com os ânimos ainda acirrados, o presidente da Câmara garantiu que hoje a imprensa terá acesso aos trabalhos, mas não detalhou como isso será feito na prática. A atitude de ontem, de barrar a entrada de jornalistas, foi criticada por especialistas.

- Os manifestantes, geralmente, formam um grupo maior, de mais de cem, 200. A imprensa é meia dúzia de agentes, e não há registro de depredação por parte dela. E ela tem o direito, assim como os manifestantes, de ter acesso aos prédios públicos, à informação. A imprensa jamais pode ser proibida de entrar. Bloquear a sua entrada é um exagero. Não vejo motivos suficientemente graves que justifiquem isso - afirma o Professor de Direito da Fundação Getulio Vargas (FGV) Ivar Hartmann, especialista em liberdade de expressão.

Reunião anulada por mandado de segurança
Ainda que ocorra sem o acesso do público, a votação de hoje pode ser dificultada por uma decisão de ontem da Justiça. A juíza Gisele Guida de Faria, da 9ª Vara de Fazenda Pública, concedeu um mandado de segurança ao vereador Jefferson Moura (PSOL) que anula uma reunião entre quatro comissões, que teria sido realizada em 23 de setembro, para dar aval ao projeto enviado pelo Executivo. O vereador argumentou que o encontro - do qual ele e Reimont (PT) foram excluídos - na verdade não aconteceu. A magistrada determinou que os efeitos dessa reunião fiquem suspensos até que a Casa se pronuncie.

- Acredito que, com a suspensão da primeira reunião, não há como votar o plano amanhã (hoje). Esse primeiro encontro foi para analisar a proposta inicial do projeto. E outro teria de ser realizado para a análise das emendas - disse Jefferson.

Uma nova reunião das quatros comissões foi realizada na tarde de ontem. O encontro analisou o projeto de lei do plano de cargos e salários enviado pelo prefeito, mas não as emendas. A base do governo vai tentar que sejam dados pareceres às emendas hoje em plenário antes da votação, o que será questionado por Jefferson.

 

Prefeitura: salário proposto por Sepe chegaria a R$ 132 mil
A prefeitura vai ter que rever gastos de custeio para dar conta dos R$ 3 bilhões que pretende desembolsar em cinco anos - sendo R$ 1,5 bilhão imediatamente - para fazer valer o plano de cargos e salários dos profissionais de Educação aprovado na Câmara. Mas a conta poderia ser maior: enquanto pelo projeto de lei um Professor com todas as especializações possíveis e em fim de carreira chegará a um salário de cerca de R$ 9 mil, a proposta que pretendia o Sepe (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação) levaria a um vencimento final de até R$ 132 mil, segundo cálculos feitos pela Secretaria da Casa Civil.

O gabinete do vereador Paulo Messina (PV) também fez os cálculos e chegou ao valor final de até cerca de R$ 53 mil mensais, caso a proposta que o Sepe tivesse vingado. A diferença entre o que passou e o pedido do sindicato é nas porcentagens de ganhos por evolução por tempo de serviço ou de cursos de especialização. Enquanto os Docentes queriam, por exemplo, um aumento de 15% a cada nível por anos de carreira, ficaram mantidos os 4% atuais.

Na redução de despesas, como no aluguel de carros e contas telefônicas, por exemplo, a ideia é preservar os investimentos já programados até 2016, em projetos como a implantação de corredores de BRTs, a ampliação da rede de UPAs e a implantação do turno único em 250 Escolas. A estratégia começará já com uma revisão de gastos previstos na proposta orçamentária da prefeitura para 2014, encaminhada a Câmara dos Vereadores na segunda-feira, antes do plano ser aprovado. Por enquanto, não se fala em aumento de impostos.

Nos contracheques do mês que vem, os Professores já receberão um aumento de 8% em relação aos vencimentos de outubro. A primeira parcela da equiparação salarial entre todas as classes de Professores - prevista para cinco anos - será paga a partir de outubro de 2014. O secretário municipal da Casa Civil, Pedro Paulo Carvalho Teixeira, acrescentou que além de cortes no custeio, a prefeitura aposta no crescimento da economia da cidade nos próximos anos, o que também elevaria a receita com impostos.

- Apenas esse primeiro reajuste elevará os gastos de pessoal da prefeitura de 43,12% (previsão de 2013) para 45,93% de todas as receitas ao ano. Ainda estamos analisando o peso que a equiparação das horas-aula trará a cada ano sobre o orçamento - disse Pedro Paulo.

Na proposta original, não haveria a equiparação salarial. Com a mudança aprovada, a prefeitura também vai rever a estratégia para preencher as vagas de 40 horas. A previsão original abria a possibilidade de contratar até 5 mil servidores a mais Agora, antes de recrutar novos Professores em concursos públicos, o município priorizará a seleção na própria rede, entre aqueles que hoje cumprem escalas de trabalho de 16horas, 22h30, 30 horas e dupla regência. As regras só devem ser divulgadas pela Secretaria de Educação em 2014.

Ontem, Pedro Paulo disse ainda que Professores em greve terão entre 10% e 20% dos vencimentos brutos descontados pelos dias parados em setembro. Os valores serão devolvidos a medida em que as aulas forem repostas.

 

Evolução profissional é ponto crítico em plano da prefeitura
Uma comparação feita por técnicos do gabinete do vereador Renato Cinco (PSOL) a pedido do GLOBO mostra que a projeção de evolução na carreira é o grande abismo que separa a rede municipal da elite da Educação pública do Rio. Pelo novo plano de cargos da prefeitura, aprovado ontem na Câmara, um Professor de Ensino fundamental com licenciatura plena e carga horária de 40 horas semanais pode ganhar um acréscimo máximo de 15% no salário se buscar o aperfeiçoamento profissional e chegar, por exemplo, a completar um doutorado. No Colégio Pedro II, para um Docente em meio de carreira, esse percentual pode chegar a 115%. O curioso é que se for comparado o salário-base de início de carreira para 40 horas, o do município é maior: R$ 4.147,37. No Pedro II, o valor é de R$ 3.594.

Outro empecilho é que o plano da prefeitura aprovado ontem prevê que apenas os Professores que migrarem para 40 horas semanais terão o direito de um salário maior por completarem a pós-graduação, doutorado e pós-doutorado. E o próprio município ainda não definiu quando e como será feita a migração. No caso do mestrado, foi mantida a regra atual, de acréscimo de 12%. No Pedro II, para quem tem dez anos de carreira, o percentual com a especialização é de 56,7%.

Outra questão que pode ser decisiva na comparação é o fato de no Pedro II já haver uma regulamentação que proíbe um Professor de 40 horas semanais de dar mais de 24 tempos efetivos de aula. A média costuma ser de 21 tempos.

O restante precisa ser voltado para preparação do que será aplicado e tarefas adicionais, como correção de provas. Na rede municipal, não há essa regulamentação, mesmo após o plano e os Professores costumam dar 27 tempos em sala, não conseguindo fazer uma preparação mais elaborada.
O GLOBO também fez uma comparação entre a hora/aula que a prefeitura pretende pagar a todos os Professores de Ensino fundamental com licenciatura plena - a ser unificada em cinco anos - e o que é pago nas melhores Escolas particulares da capital. Em valores atuais, ela é de R$ 25,92. De acordo com os sindicatos de Professores e de donos de Escolas da rede privada, a média fica entre R$ 35 e R$ 50 nas unidades de melhor desempenho. O piso salarial, porém, é de R$ 14,17.

Uma comparação feita pela Secretaria municipal da Casa Civil entre os salários em oito capitais além do Rio (Campo Grande, Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, Goiânia e Florianópolis) põe a rede municipal no topo do valor de hora/aula, com os R$ 25,92 aprovados. Para o Professor chamado PI (6º ao 9º ano do Ensino fundamental), o segundo lugar fica com Campo Grande, com R$ 23,13. Para o PII (1º ao 5º ano), o segundo posto fica com Curitiba, com R$ 19,15.

Números
R$ 4.147
é o salário básico para 40 horas do plano de cargos da prefeitura.

R$ 3.594
É o valor pago no início de carreira para Docentes do Colégio Pedro II.

 

Passeata termina em pancadaria
Um grupo de cerca de cem pessoas vestidas com roupas pretas, alguns com máscaras e bandeiras da mesma cor, juntou-se aos Professores e manifestantes numa passeata que terminou em confusão e pancadaria em vários quarteirões da Avenida Rio Branco, no fim da noite de ontem. Cerca de 300 manifestantes participavam do protesto. A confusão começou quando PMs teriam tentado prender jovens que estilhaçaram vidraças de uma agência do banco Itaú em frente ao Theatro Municipal. Os manifestantes responderam ateando fogo em lixeiras e espalhando o lixo no meio da rua.

Confusão no Odeon
Em meio à confusão, manifestantes que fugiam das bombas de gás lacrimogênio lançadas pelos policiais militares buscaram refúgio no cinema Odeon, onde acontece o Festival do Rio. Policiais militares chegaram a fazer um cordão de isolamento ao redor do prédio, mas o diretor do filme que foi exibido ontem, Sérgio Bianchi, pediu trégua à polícia.
- É o meu trabalho. Não estraga esta noite. Deixa eles dispersarem - disse o cineasta.

O filme, "Jogo das decapitações", aborda a ditadura no Brasil. Enquanto o comércio era fechado, quem estava nos bares e no Odeon gritava palavras de ordem, e chamava os policiais no local de covardes.

Durante o tumulto, o fotógrafo Marcos Sordi, do jornal "Zona de Conflito", foi ferido na cabeça nas costas, sendo atendido por socorristas voluntários. Segundo ele, a agressão teria partido da polícia. Outros manifestantes também foram agredidos a golpes de cassetete. Já um PM acabou ferido com uma pedrada. Um cinegrafista e um jovem manifestante foram detidos.

Por causa da confusão, o trânsito nas ruas do Centro ficou congestionado ao longo de toda a noite, dificultando a volta para casa.



Sepe teve registro suspenso pela justiça do trabalho
De SEP em CEP o Cepe vira Sepe. Essa dança de siglas, ostentada em caixa alta no site do Sepe, serve de resumo para a história do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro, que desde o mês passado, por conta de uma decisão da Justiça trabalhista (da 4ª Vara do Trabalho do Distrito Federal), está com o registro suspenso. A suspensão foi solicitada por outro sindicato da categoria - Uppes, União dos Professores Públicos do Estado -, reconhecido e registrado legalmente desde 1989.

Ou seja: não bastassem todas as dificuldades da profissão, os Professores do Rio de Janeiro, historicamente uma massa de manobra política, têm dois órgãos de classe, coisa que a Constituição não permite.

O Sepe nasceu como SEP (Sociedade Estadual dos Professores) na segunda metade dos anos 1970, quando a ditadura então comandada pelo general Ernesto Geisel acenava com uma distensão lenta, gradual e segura do regime.

Liderada pelo Professor de matemática Godofredo Pinto, a entidade lutava, com passeatas e greves, por salários e melhores condições de trabalho, tudo o que o Sepe exige hoje. Foi o primeiro movimento de classe a peitar a ditadura no Rio. O Estado do Rio de Janeiro, criado por decreto em 1975, tinha como governador (nomeado) o almirante Faria Lima, que, apesar da repercussão do movimento na imprensa, nunca reconheceu o grupo, recebido algumas vezes, no entanto, pela então secretária estadual de Educação, Myrthes Wenzel.

Em 1981, quando o novo estado já era governado por Chagas Freitas (também nomeado), Godofredo sinalizou com clareza aos seus liderados que suas pretensões não eram exatamente educacionais. Mudou a sigla - a SEP virou CEP (Centro Estadual dos Professores) -, deixou o PT e ingressou no PMDB, pelo qual foi candidato a deputado estadual já no ano seguinte, engatando uma carreira política que culminou com a prefeitura de Niterói, onde ficou de 2002 a 2008.
A luta dos Professores ganhou novos líderes - que, igualmente, alçaram voos na política -, o CEP virou Cepe e depois Sepe, e as grandes reivindicações da categoria continuaram no ar.

Hoje, além da polícia, o Sepe, Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (dominado por partidos políticos minoritários), tem de enfrentar a Uppes (o sindicato da categoria que a lei reconhece), numa luta que já dura anos e que ganhou complicações jurídicas ainda maiores por obra do ex-ministro do Trabalho Carlos Luppi. Foi ele quem, numa negociação política, concedeu ao Sepe o registro de sindicato da categoria, mesmo sabendo da existência da Uppes.

Tudo indica que a sigla do Sepe ainda tem uma estrada longa a percorrer. Na cobertura da imprensa da atual luta dos Professores, está difícil encontrar, na linha de frente, nomes de líderes que ao longo das últimas décadas se elegeram com o voto do magistério.

Apesar de o Sepe, em seu estatuto, se declarar independente de partidos políticos, sua diretoria central inclui várias pessoas que já disputaram cargos políticos e que militam em siglas como PSTU. Vera Nepomuceno (da Diretoria de Imprensa), por exemplo, foi candidata a vice-prefeita em 2008.

 

Opinião: Greve de professores extrapola a educação
Enquanto as manifestações de rua, iniciadas em junho, se alastraram pelas capitais e não muito depois começaram a perder força, no Rio aspectos políticos locais mantiveram mobilizações localizadas. A mais importante delas, a greve de Professores estaduais e municipais. Desde o período inicial da redemocratização, quando, na rearticulação sindical, surgiu o Sepe (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação), não se viam manifestações como as atuais. Mas a violência, hoje, parece maior.

É estranho, para os menos avisados, que esta mobilização ocorra quando o Professorado municipal, onde é maior a tensão, consegue não apenas um novo plano de cargos e salários - o último tinha pouco mais de 20 anos -, mas também um reajuste real, acima da inflação, de 8%. Reconheça-se que a remuneração do magistério continua baixa para a importância da função, mas, além do aumento, passa a haver novas e melhores regras de reenquadramentos e promoções.

Porém, a aprovação do plano, na Câmara de Vereadores, terça, fechou o Centro, prejudicando milhares de pessoas, porque Cinelândia e adjacências serviram de área para confronto entre sindicalistas, vândalos e PMs até o início da noite. A violência é explicada, em parte, pelo perigoso fenômeno de grupos anarquistas (Black Blocs, por exemplo) que se aproveitam, principalmente em Rio e São Paulo, das mobilizações para depredar.

Ocorre, ainda, a subordinação do Sepe a plataformas político-eleitorais de partidos mais à esquerda - PSOL, PSTU -, em que a prioridade é enfrentar a aliança partidária no poder no estado e na prefeitura.
Surgido sob direta influência do PT, com o tempo o Sepe se radicalizou. Simboliza bem o atual sindicato dos Professores a cena de um líder sindical, na terça-feira, em cima de um carro de som, enaltecendo a ação de vândalos do Black Blocs.

Não se contesta, é claro, a liberdade de organização política, conquista da redemocratização. O PT e a CUT têm origens que se entrelaçam, por exemplo. Mas propostas da CUT não transitam com facilidade no governo federal do PT. Caso da bandeira da jornada de 40 horas. E vice-versa. Pois a necessária reforma da Previdência, que parte do PT já se convenceu ser necessária, é rejeitada pelo braço sindical do partido.

Quando partido e sindicato se misturam ocorrem problemas como a crise da GM em São José dos Campos, em que os metalúrgicos, radicalizados pelo PSTU, levaram a montadora a começar a transferir a produção para outras unidades do grupo. Os metalúrgicos perdem os empregos e o município, arrecadação. O fenômeno é clássico e esteve por trás do esvaziamento de Detroit (EUA).

Na greve de Professores é mais grave. Se operários podem procurar colocação em outras regiões, milhares de crianças e jovens, a maioria de famílias de renda mais baixa, do estrato social que PSOL e PSTU se arvoram a representar, têm prejuízos no aprendizado, de difícil ou impossível recuperação.

 

Opinião: Brasil, Educação zero
Um país que trata os seus Professores a cacetadas, balas de borracha e spray de pimenta é um país que despreza o seu futuro

Há algumas semanas, voltou a circular pela internet um ranking de aprendizado mundial divulgado no final do ano passado pela Pearson, empresa inglesa dedicada à Educação. Ele reflete dados colhidos entre 2006 e 2010 em 39 países e uma região administrativa (Hong Kong), e não chega a surpreender quem se interessa pelo assunto. O primeiro lugar é ocupado pela Finlândia, seguida por Coreia do Sul, Hong Kong, Japão e Cingapura. O Brasil só não ficou em último lugar porque, espantosamente, a Indonésia conseguiu se sair ainda pior.

O ranking é baseado em dois indicadores, um que verifica a habilidade cognitiva dos Alunos através de uma série de testes de leitura, matemática e ciência, e outro que aponta o nível da sua formação através das notas de graduação e cultura geral.

Entrevistado pela BBC, Sir Michael Barber, diretor do conselho educacional da Pearson, disse que os países mais bem colocados têm, em comum, uma “cultura da Educação”: entre outras coisas, seus Professores são respeitados e gozam de alto status social.

Aí está o X da questão. Educação não se compra pronta ali na esquina, nem se faz unicamente com Escolas e Professores; Educação se faz com determinação social, e com a percepção generalizada de que levar os estudos a sério é fundamental para o desenvolvimento do país e de seus habitantes. Prova disso é que os Estados Unidos, com todo o seu poderio econômico, amargaram um medíocre 14º lugar no ranking.

“À primeira vista, dinheiro e Educação parecem criar um círculo virtuoso, no qual países — e indivíduos — ricos compram boa Educação para as suas crianças, que, por sua vez, se beneficiam economicamente” — diz o prefácio do estudo. — “Um olhar mais atento, porém, revela que tanto os maiores índices de renda quanto os melhores resultados nos testes de conhecimento são resultado de estratégias adotadas muitas anos antes, independentemente dos níveis de renda então existentes.”

O Brasil, longe de ter uma “cultura da Educação”, tem uma “cultura da ignorância”, que as nossas crianças aprendem desde cedo. Melhor do que ser bom Aluno é ser esperto, é colar sem que o Professor veja, é comprar as respostas das provas para ter não um conjunto de conhecimentos importante, mas um diploma. Que, aliás, e não por acaso, vale cada vez menos.

Longe de gozar alto status social, como nos países verdadeiramente desenvolvidos, nossos Professores são humilhados e desprezados pelos governantes. São agredidos pelos Alunos em sala de aula com frequência alarmante e, muitas vezes, os pais dos agressores ainda se sentem no direito de tomar satisfações na diretoria.

A Educação brasileira, que nunca foi lá aquelas maravilhas, começou a ser desmontada durante a ditadura e, de lá para cá, veio ladeira abaixo como um trator sem freio. Não consigo imaginar outro país em que um presidente tenha dito, como disse Lula, que ler livro é como andar na esteira.

Os sinais da decadência do Ensino — que é, no fundo, a decadência do apreço pela cultura e pela Educação — podem ser vistos em toda a parte, dos cardápios mal redigidos dos restaurantes às placas das rodovias federais, onde as crases não são usadas por necessidade, mas por capricho.
No rádio e na televisão praticamente não há entrevistado, de qualquer profissão ou instância de poder, que consiga formar uma frase correta, sem erros de regência ou de concordância. Quando as entrevistas são feitas com políticos ou com “autoridades”, então, a coisa desanda de vez.

Minha irmã é Professora na pós-graduação em música da UniRio. Na semana passada, me mostrou algumas provas que corrigiu. Os Alunos — candidatos a mestrado e doutorado — tinham que traduzir um pequeno trecho do inglês para o português. Era um trecho simples, sem maiores mistérios, sobre o papel do regente na orquestra. Em muitas das provas, a palavra “wand”, batuta, foi traduzida por varinha de condão, sua primeira acepção no dicionário. Como é que um estudante formado em música num curso superior pode chegar a essa conclusão?! Será que não desconfia de que algo está errado numa tradução que põe nas mãos do regente uma varinha de condão no lugar de uma batuta? E não, o trecho a ser traduzido não se passava em Hogwarths!

Nem vou falar nas frases ininteligíveis, nos erros crassos de português ou na indigência geral do vocabulário, absolutamente deprimentes para quem ainda tem alguma esperança neste país.

O primeiro passo para a criação de uma “cultura da Educação” é valorizar os Professores, conferindo-lhes a devida importância no tecido social. Isso significa remunerá-los dignamente, dar-lhes reconhecimento e boas condições de trabalho. Isso é essencial para que o Aluno possa olhar para o Professor com admiração e respeito, e para que passe a considerar o magistério uma profissão nobre, digna de ser exercida. Valorizar os Professores significa também ouvi-los quando dizem que não têm mais como continuar trabalhando com os salários ridículos que recebem.

Um país que trata os seus Professores a cacetadas, balas de borracha e spray de pimenta é um país que despreza o seu futuro. A Indonésia que nos aguarde: no próximo ranking da Pearson, ninguém tasca o nosso último lugar.


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Sempre vejo o termo CPI dos ônibus vindo acompanhado com o termo manifestação... Ninguém mais aguenta baderna, gente!

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