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O ensino bilíngue

30 de agosto de 2014
Entrevista com Antonieta Megale, que coordena curso de pós-graduação em Didática para a Educação Bilíngue

Fonte: Tribuna do Planalto (GO)




Ter o domínio de mais de um idioma é tido cada vez mais como algo de grande importância para a formação. Seja para conseguir um bom emprego, aumentar o nível cultural, enfim, são muitos os benefícios. A procura por esse tipo de capacitação não está restrita apenas aos adultos, ao contrário, é cada vez mais comum a oferta de outro idioma também para crianças, já nos anos iniciais do ensino básico. Um tipo de prática, segundo a mestre em Linguística Aplicada, Antonieta Megale, que traz muitos benefícios à criança. “O aprendizado do vocabulário, sintaxe, fonologia, morfologia e registro de mais de uma língua proporciona às crianças bilíngues maior discernimento de seus processos cognitivos e estratégias de aprendizagem”, diz.

Apesar da crescente procura pelo ensino bilíngue, a oferta ainda esbarra na falta de professores qualificados no mercado para ensinar. De acordo com Antonieta Megale, que coordena curso de pós-graduação em Didática para a Educação Bilíngue, as instituições de ensino superior precisam ficar mais atentas à essa necessidade, já que a procura por um curso que capacite o professor e o coordenador para o trabalho pedagógico em uma escola bilíngue é cada vez maior. Sobre estes e outros assuntos, a educadora falou com exclusividade nesta entrevista ao Escola.

Como pode ser definida a educação bilíngue?
Apesar do crescimento significativo das escolas de educação bilíngue no Brasil, não há nenhuma lei nacional que embase este tipo de educação. Essa falta de regulamentação nacional faz com que a própria definição do que é uma escola bilíngue se torne um tema bastante controverso. A expressão “educação bilíngue” é utilizada de maneira bastante abrangente no Brasil para caracterizar diferentes formas de ensino. Os modelos de educação bilíngue são variados e diferem quanto aos objetivos, à distribuição do tempo de instrução nas línguas envolvidas, às abordagens e práticas pedagógicas.

Há uma definição geral?
De forma geral, entende-se por educação bilíngue qualquer sistema de educação escolar no qual, em dado momento e período, simultânea ou consecutivamente, a instrução é planejada e ministrada em, pelo menos, duas línguas. No entanto, não se entende como educação bilíngue programas nos quais a língua adicional ou a língua estrangeira é ensinada como matéria e não é utilizada para fins acadêmicos, embora o ensino da língua adicional possa ser parte de um programa de educação bilíngue. Também se excluem, não somente os casos em que uma mudança de código linguístico ocorre no meio da instrução sem planejamento pedagógico adequado, mas também os numerosos exemplos de submersão, nos quais os alunos frequentam um programa ministrado na língua materna de um outro grupo e, dessa forma, têm sua língua ignorada pelo sistema educacional.

Dentre os diferentes modelos, qual é o mais utilizado no Brasil?
Em se tratando de educação bilíngue para crianças do grupo dominante, como, por exemplo, as escolas bilíngues português-inglês, que atendem quase, em sua totalidade, alunos de alto poder aquisitivo, o modelo mais comum no Brasil é o de imersão. Imersão significa simplesmente que um grupo de crianças falantes de uma certa língua materna recebe toda ou parte da instrução escolar por meio de uma língua adicional, no caso, o inglês. Como não há nenhuma lei nacional que embase a educação bilíngue no Brasil, a distribuição do tempo de instrução nas línguas envolvidas, as abordagens e as práticas pedagógicas variam consideravelmente. Porém, há no Brasil outras propostas reconhecidas e discutidas atualmente: a educação bilíngue com a Língua Brasileira de Sinais (libras), a educação bilíngue indígena e a educação bilíngue em contextos multilíngues.

Existe uma idade mais apropriada para que uma criança ingresse em uma escola com este modelo de educação?
Não há uma idade específica para que isso ocorra. Porém, é esperado que o aluno que ingresse mais tardiamente tenha mais dificuldade para compreender as aulas, como por exemplo, de matemática ou ciências, caso ele não tenha conhecimento da língua na qual as disciplinas são ministradas. Entretanto, uma escola com estrutura apropriada pode oferecer um programa adicional para que o aluno avance em seus conhecimentos da língua estrangeira utilizada naquele ambiente.

Além da familiaridade com dois idiomas desde muito cedo, quais são os outros benefícios da educação bilíngue?
Crianças bilíngues possuem maior capacidade de pensar sobre a língua, uma vez que ao serem expostas às duas línguas adquirem precocemente consciência de que as palavras são apenas arbitrárias e simbolicamente relacionadas aos seus conceitos. Por exemplo, saber que “dog” e “cachorro” são conceitos para o mesmo animal as levam ao entendimento que a palavra “cachorro” é apenas um símbolo arbitrário. Além disso, o aprendizado do vocabulário, sintaxe, fonologia, morfologia e registro de mais de uma língua proporciona às crianças bilíngues maior discernimento de seus processos cognitivos e estratégias de aprendizagem. Há também vantagens sociais e culturais evidentes. Saber duas línguas proporciona a esse falante a possibilidade de penetrar em diferentes culturas e ter acesso a conhecimentos não disponíveis em sua língua materna.

A estrutura necessária para que uma escola ofereça uma educação bilíngue é muito diferente da estrutura de uma escola convencional?
Como a escola tem que cumprir com o conteúdo exigido pelo MEC e oferecer disciplinas em língua inglesa também, ela precisa de um período maior de aula. Dessa forma, essas escolas são, em sua maioria, de período integral ou semi-integral. Com um número maior de aulas ministradas em língua inglesa, as crianças são expostas a um tempo maior de contato com o idioma, mais do que se estivessem em um curso particular, o que, de certa forma, ameniza uma das dificuldades que o ensino de línguas em escolas enfrenta, que é a maior quantidade de alunos dentro de sala de aula, quando comparadas a cursos particulares.

E como está a oferta de capacitação para os professores que desejam trabalhar nessa área de ensino?

Para suprir a lacuna existente na formação de professores para contextos de educação bilíngue surgem, embora a passos lentos, cursos de extensão e de pós-graduação no Brasil que assumem a função de formar esses profissionais, uma vez que os cursos de graduação parecem ignorar a crescente demanda por professores capacitados para atuar em escolas bilíngues. Desse modo, a procura por um curso que capacite o professor e o coordenador para o trabalho pedagógico em uma escola bilíngue é cada vez maior.

Já há, então, uma maior demanda por professores especializados em educação bilíngue?
É evidente o crescimento das escolas bilíngues no Brasil. Esse novo modelo de educação teve grande adesão das famílias brasileiras que percebem as escolas bilíngues como uma oportunidade cômoda para conseguir duas funções tão importantes e necessárias na educação de seus filhos: uma educação de qualidade e o ensino de uma língua estrangeira. Consequentemente, a demanda por professores especializados para atuar neste segmento cresce consideravelmente.

O que é mais importante na formação de um professor que queira se especializar nesta área?
É indiscutível que o professor que atua na educação bilíngue deve possuir a capacidade integral para trabalhar e ensinar crianças e adolescentes. Desse modo, entende-se que a formação superior na área de atuação do professor se faz imprescindível. Aliado a isso, falta a formação referente a aspectos teóricos relacionados ao bilinguismo e a educação bilíngue, sem mencionar o conhecimento linguístico-discursivo para atuar neste segmento. 


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