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Aprendizes de professor

04 de dezembro de 2015
Na Universidade Federal do ABC, bolsistas do Pibid de Biologia e Ciências debatem como abordar sexualidade em sala de aula e descobrem o que é ser professor

Aprendizes de professor
Divulgação




Pricilla Kesley, do Todos Pela Educação 

Durante uma das reuniões do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), da Universidade Federal do ABC (UFABC), João Paulo Soares, aluno da licenciatura de Biologia, socializa como ministrou uma aula sobre camisinha. “Eu pedi aos alunos para colocarem a camisinha nos braços e deixar a água de uma torneira escorrer por cima. Assim, perceberam que a sensibilidade é mantida”. Assuntos ainda considerados tabu na escola são encarados sem medo pelos bolsistas do Pibid da UFABC. “Eu falo de sexo com os alunos como falaria de qualquer outro assunto pedagógico, porque é um assunto qualquer”, esclarece João.

Dispostos em círculo, a maior parte do grupo é de alunos bolsistas da graduação, mas também estão presentes professores da Educação Básica de Santo André, que atuam como professores supervisores dos pibidianos. Na condução dos debates está Mirian Pacheco, professora da UFABC e coordenadora do Pibid na área de Biologia e Ciências.

Em encontros semanais, universidade e educação básica se reúnem para discutir docência: esse é o mérito do Pibid, considerado por especialistas o mais promissor programa de formação docente no Brasil. Nessas reuniões, o grupo troca impressões sobre os projetos pedagógicos em andamento nas escolas públicas, os problemas diários da sala de aula e como um bom professor de biologia ou ciências, atento às demandas do século 21, pode abordar temáticas como sexualidade, gravidez na adolescência, doenças sexualmente transmissíveis, cuidados com o corpo, entre outros.

Com 19 anos de experiência docente, Mirian explica o caráter de sua liderança na condução do trabalho. “Cada um dos jovens será professor de um jeito, por isso eu privilegio a autonomia e a individualidade. Nós ensinamos algumas técnicas, mas cada um, à sua maneira, constrói a identidade profissional”, afirma.

A UFABC tem 114 alunos-bolsistas que atuam como aprendizes do magistério em doze escolas públicas da região do ABC, na Grande São Paulo. O grupo é uma pequena amostra da comunidade que compõe Pibid em todo Brasil. Entre coordenadores, supervisores e licenciandos, são cerca de 90 mil bolsistas – número que cresceu 16 vezes entre 2007 e 2012 e quase dobrou entre 2012 e 2013.

Para Felipe Rodrigues Pius, supervisor dos pibidianos na escola Dr. Celso Gama, em Santo André, um dos grandes trunfos do programa é o estímulo ao crescimento mútuo de professores regulares e bolsistas, instituindo um canal entre escola e universidade. “O docente acha que sabe tudo e, com os pibidianos, descobre que não é bem assim. O maior benefício é a troca de ideias, eles têm uma visão diferente da sala de aula”, declara.

Cortes
Assim como toda a comunidade do Pibid e de especialistas na área de Educação, o grupo de iniciação à docência da UFABC teme a redução do programa. Desde junho, participantes de todo Brasil têm se manifestado - por meio de abaixo-assinados, manifestações e discussões em redes sociais - contra os cortes que devem afetar o programa em 2016. 

A mobilização é um reflexo da popularidade dessa política pública e das possibilidades que ela proporciona: autonomia, flexibilidade metodológica, experiência prática, crescimento pessoal e profissional. “A gente descobre que ser professor não é apenas ter aquela metodologia tradicional. Dá para construir conhecimento na escola com diversas metodologias”, opina Carolina Boccuzzi, bolsista na área de biologia.

Numa avaliação do programa, conduzida pela Fundação Carlos Chagas (FCC) – que ouviu 20.115 pessoas –, a conclusão é semelhante: o programa é uma unanimidade. O documento, de setembro de 2014, aponta o Pibid como uma política efetiva, valorizada por todos os participantes em todos os níveis.

“Nas reuniões, há leituras de texto, debates, reflexões sobre a prática, o porquê de fazer uma atividade baseada em problemas, e não ficar apenas na aula expositiva. Todos saem ganhando”, avalia o bolsista João Paulo.

Para a também bolsista Graziele Ferreira, os cortes no programa não serão uma perda apenas para a comunidade dos participantes, mas para toda Educação brasileira. “Haverá formação de professores alienados da prática, o que resultará, como sempre, em frustração e abandono. ”

A pesquisa da FCC também aponta alguns aprimoramentos possíveis, como a criação de uma plataforma digital para troca de experiências entre bolsistas, a redução de burocracias e a ampliação do número de bolsas. 

Aprendendo a falar de sexo
No grupo de jovens pibidianos da UFABC estão Carolina Santa Croce e Gabriela Brayner Costa, bolsistas supervisionadas por Felipe, que participaram das atividades do projeto “Revista Diário da Sexualidade”, na escola estadual de tempo integral Dr. Celso Gama, em 2014, ano em que a iniciativa rendeu ao professor o Prêmio Professores do Brasil.

O projeto está em seu terceiro ano de execução, sempre com a participação de pibidianos, o que, segundo Felipe, abre espaço para experimentações. As atividades integram o bolsista ao dia-a-dia da escola. Ao longo do ano letivo, as estudantes realizam uma série de atividades. O resultado é uma revista escrita e ilustrada pelos alunos, homônima ao projeto. “As aulas são muito mais voltadas para a vida, em vez do biológico. Isso faz com que os bolsistas tenham que pensar novas maneiras de ligar os pontos”, explica.

A Revista deixa entrever como o Pibid pode colaborar para o complemento da grade curricular da escola. As dinâmicas do Diário da Sexualidade ocorrem na oficina curricular Saúde e Sexualidade, cujas temáticas passeiam por assuntos transversais às disciplinas como o respeito à diversidade sexual.

Um dos segredos do sucesso do projeto, revela Felipe, é o material ser uma produção dos alunos. “Uma revista que fala de sexualidade, de coisas muito pessoais, é um veículo que permite que os pais possam ver os filhos de outra maneira. A ideia é entender a sexualidade de uma forma ampla”.

Falar sobre sexualidade na sala de aula, reflete Carolina, é um exemplo de como o bolsista pode atuar em lacunas que muitas vezes existem entre professor e turma, complementando a aprendizagem da classe. “O aluno muitas vezes se sente mais à vontade em conversar conosco do Pibid. Eles nos pedem ajuda em assuntos que não conseguem falar com o professor”, conta a jovem, que integra o programa há três anos.

O primeiro contato de Gabriela com a escola pública foi há dois anos, quando entrou no Pibid, sob supervisão de Felipe. A experiência é um divisor de águas, conta a jovem. “Cheguei com muito medo da sala de aula. A gente ouve relatos de violência, fica assustado e não quer estar nesse meio. Mas perdi esse medo. A primeira vez que estive à frente da classe foi algo muito natural”, relembra. Hoje atuando sob supervisão de outra professora, ela afirma: “Estou achando minha identidade como profissional, juntando o melhor dos mundos para formar o meu”, conclui.

Felipe sintetiza a contribuição do programa para a Educação: “Os licenciados percebem os professores como pessoas e não mais como uma autoridade apenas, e a ideia da Educação é justamente de que ninguém tem que se submeter a ninguém, mas sim estabelecer uma relação de fonte de conhecimento.”

Leia mais relatos sobre experiências no Pibid aqui


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