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Autonomia na prática

31 de maio de 2016
Escola da periferia de São Paulo cria projetos para despertar a criatividade e o senso crítico dos alunos

Autonomia na prática
Pricilla Honorato/TPE




Bruna Rodrigues, do Todos Pela Educação

Ligado à subprefeitura de Perus, na zona Noroeste da cidade de São Paulo, o bairro Vila dos Palmares está localizado na parte mais alta da região denominada como Morro Doce. Após passar por ruas um tanto estreitas e ladeiras íngremes, a subida, quase eterna para quem desconhece o itinerário, se encerra com vistas da Rodovia Anhanguera cada vez mais distante e abaixo do morro. O trajeto tem fim nos portões da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Marili Dias.

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Em uma das salas, o professor de geografia Fabio Augusto Machado apresenta a uma plateia de 20 alunos do 7º ao 9º ano do Ensino Fundamental a temática trabalhada com a turma durante aquelas aulas: “A luta pelo espaço público: qual é a escola que temos e qual a que queremos?”.

Convidados a debater, os estudantes apontam que o bullying faz parte da realidade daquele espaço, e que isso deve ser combatido. Com esses apontamentos, Fabio prepara as próximas aulas e traz para os alunos materiais para a construção de diálogos mais aprofundados, como vídeos e leituras. Na etapa seguinte, os adolescentes decidem encenar, produzir e dirigir um filme que traz essa abordagem.

O educador descreve o projeto para Susete Mendes, atual diretora e antiga professora de alfabetização da Marili Dias, e ela tem a ideia de mostrar aos discentes o conto “Uma Vela para Dario”, de Dalton Trevisan, com o objetivo de questionar a indiferença dos que presenciam o bullying e o quanto isso também é prejudicial.

A partir daí, o enredo da obra cinematográfica é decidido pelos estudantes: neste ano, trabalharão em duas narrativas paralelas dentro do mesmo filme, a história do pobre Dario e um conto sobre a indiferença por parte dos alunos e professores dentro da escola em casos de violência sistemática.

A parceria entre alunos, professores e direção é uma constante na Escola Marili Dias. A sequência citada faz parte do projeto “Geografia – A construção da identidade no espaço escolar”. Comandado pelo professor Fabio, o projeto é realizado no contraturno e será apresentado durante a Semana de Geografia, evento promovido pela Universidade de São Paulo, a ser realizada em outubro deste ano, que propõe temas para as discussões e reúne presencialmente os colégios inscritos para a apresentação do que construíram ao longo do ano. Projetos desse tipo são feitos desde 2011 na Marili Dias. No início deste ano, os alunos puderam escolher entre dez diferentes projetos.

De acordo com Fábio, que também é Professor Orientador de Educação Integral (Poei) na unidade, há um projeto mais abrangente, chamado "Nós Somos Marili Dias", que faz parte do programa federal "Mais Educação" e inclui: Sarau e teatro; Música; Esportes; Cultura Digital; Robótica; Imprensa Jovem; Geografia (USP). “Os demais não estão inseridos no programa federal, mas fazem parte do municipal ‘Mais Educação São Paulo’: Xadrez, Jogos Africanos e Libras”.


Alunos da Emef Professora Marili Dias durante o projeto de Robótica                                                     Foto: Pricilla Kesley/TPE

Susete explica que os docentes apresentam as ideias para a diretoria e se oferecem para coordenar as iniciativas. Os estudantes, segundo a diretora, têm grande participação nesse processo. “Quando os professores pensam em um projeto, é porque eles sentem dentro das salas de aula e no cotidiano essa necessidade pela voz dos alunos, isso faz com que o educador pense em algo para atender o estudante”.

Adriana da Silva Ferreira é professora de língua portuguesa do Marili Dias desde 2015. No ano passado, durante as aulas regulares com as turmas do 9º ano, ela desenvolveu um sarau social com o objetivo de trazer para a classe pautas da comunidade em que vivem. Segundo Adriana, o projeto fez sucesso, e muitos alunos ficaram interessados em fazer parte. Neste ano, ela deu início à atividade de teatro no contraturno. “Os alunos definem a peça, escrevem o roteiro, trazem as músicas, fazem tudo, eles são bem autônomos nesse processo”, explica.


Adriana Ferreira de vermelho ao fundo: "A interação entre professor e aluno melhorou muito"          Foto: Pricilla Kesley/TPE 

De acordo com Maria Virgínia de Freitas, coordenadora da área de juventude da ONG Ação Educativa, a construção da autonomia dos jovens é fundamental. “Esse exercício do experimentar, do ouvir opiniões diferentes, ponderar, defender a sua posição, participar do processo decisório, avaliar, repensar é um instrumento de crescimento humano e também de cidadania”.

Ana Elisa Pereira dos Santos tem 14 anos e está no 9º ano. Desde o ano passado ela faz parte das atividades realizadas no contraturno. Assim como Maria Virgínia, ela crê na importância da participação dos alunos na construção de um colégio democrático. "Eu acho legal nós darmos as nossas opiniões para mostrar que queremos mudar a escola”, afirma com resolução.


Ana Elisa dos Santos, 14, aluna da Emef Marili Dias: "Queremos mudar a escola"                                   Foto: Pricilla Kesley/TPE

A participação autônoma possibilita à escola conhecer melhor os estudantes, entender as questões e angústias desse público, acredita Maria Virgínia, “desse modo, a gestão poderá dialogar e fazer uma instituição mais significativa”, reitera. “A escola é só um prédio, sem aluno ela não existe, se eles são os principais indivíduos que estão aqui, são essas pessoas que devem ser ouvidas”, explicita Susete.

Resultados
Ana Elisa, bastante comunicativa durante a entrevista, vê ganhos pessoais com a iniciativa. “A minha timidez era muito grande, eu tinha medo de me expressar, mas agora coloco para fora tudo o que sinto e não ligo para o que as pessoas pensam sobre mim”, confessa. Jenifer Emilly Cintra Cordeiro, também estudante do 9º ano, confirma os efeitos dessa prática já consolidada na Marili Dias, “acho que agora eu tenho mais coragem de falar o que penso”.


Fabio Machado: "Não dá para você transformar a construção de um cidadão em nota"                         Foto: Pricilla Kesley/TPE

Adriana garante uma mudança nos relacionamentos da escola. “Pude notar diferenças na interação entre professor e aluno, ela melhora muito”, garante. A professora, assim como Fabio e Susete, se mostra realizada com o trabalho. "É difícil não se emocionar com as atitudes e comportamentos dos estudantes e saber que de alguma forma a gente participou disso", sorri a diretora.

Fabio complementa que é impossível mensurar esse tipo de aprendizagem, e que as avaliações externas não dão conta de demonstrar o ganho trazido para o aluno. “Não dá para você transformar a construção de um cidadão em nota, em números".
 


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Ja tive a feliz oportunidade de trabalhar com Fabio Augusto Machado e conheco seu intetesse e dedicacao pelas novas ideias da educacao, principalmente com alunos do Ensino Fundamental. Parabens. A Educacao precisa de profissionais desse gabarito.

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