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A democracia nasce na escola

30 de junho de 2016
Experiências bem sucedidas demonstram a necessidade de integrar o aluno e a comunidade na gestão

A democracia nasce na escola
Pricilla Kesley/TPE




Bruna Rodrigues, do Todos Pela Educação

“Rapaz, é essa escola mesmo que eu estou procurando!”, pensou Fabio Augusto Machado, professor de geografia da Emef Professora Marili Dias, quando, há quatro anos, realizava busca na internet sobre os possíveis colégios da rede municipal em que poderia dar aulas. Fabio se encantou com uma produção da escola, o livro Kizomba Literária, 96 páginas de poesias, cordéis, contos e desenhos feitos por alunos do Ensino Fundamental, e também por pais e pessoas da Vila dos Palmares, onde a escola está localizada. Hoje, além da geografia, Fabio coordena no colégio projetos realizados no contraturno que promovem e estimulam o protagonismo dos estudantes.  

O Kizomba Literária foi organizado pela professora Susete Mendes, na época orientadora da sala de leitura da Marili Dias, e, desde o começo de 2016, diretora do colégio. Há seis anos trabalhando na Emef, Susete é bem conhecida entre os 980 estudantes. De ideias libertárias e grande disponibilidade para ouvir, durante a entrevista ao TPE ela contou que, naquela manhã, havia passado em todas as salas de aula e feito a mesma pergunta: o que não existe na escola e o que vocês gostariam que tivesse? “Eu acredito que o aluno aprende mais quando ele estima o professor. Quando ele gosta da escola, fica uma maravilha”, sorri.


O livro Kizomba Literária reúne a produção artística dos alunos da Emef Profª Marili Dias                      Foto: Pricilla Kesley/TPE

O seu principal propósito na diretoria da unidade é implantar a gestão democrática, direção que possibilita a participação, a transparência e a democracia, e acredita que a cooperação entre corpo escolar é de extrema importância. “Todos somos responsáveis e comprometidos com o nosso trabalho, embora em funções diferentes, o objetivo é um só”.

Com eleições para representantes de sala e de membros do Conselho Escolar e a escrita conjunta de um novo Projeto Político Pedagógico, Susete busca consolidar essa forma de direção. “Pretendemos fortalecer a gestão democrática de tal forma que ela possa continuar sem a minha presença, porque o ideal é que a escola funcione sem gestão. Com esse discurso, vão me chamar de anarquista”, brinca.

A escola sem carteiras
Enquanto Susete inicia a construção de uma gestão democrática, a professora Eda Luiz está há 18 anos à frente do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) do Campo Limpo, em São Paulo, instituição renomada por desenvolver a participação de todos na tomada de decisões.

Logo que assumiu a direção, a primeira medida foi indagar os alunos sobre o que esperam daquele espaço. “O pedido deles foi que não houvesse carteiras enfileiradas, por isso o meu mobiliário é todo em mesas redondas dispostas pela sala, porque eles queriam enxergar uns aos outros”.

Todas as ideias partem inteiramente dos estudantes e são discutidas em assembleias e votações. “Decidimos os temas, os combinados, o repasse de verbas e, depois, durante o ano, essas reuniões acontecem de acordo com a necessidade”, explica.

Um dos principais projetos desenvolvidos pelo Cieja é uma intervenção na comunidade com base numa escolha dos alunos. Geralmente, são problemas muito próximos da realidade deles, e, a cada seis meses, é feito um projeto com o objetivo de estabelecer alguma mudança no local em que vivem. “Em um ano, fizemos oplantio de árvores na Estrada de Itapecerica. A ideia veio por meio de uma pesquisa realizada pelos estudantes no centro da cidade, na qual chegaram à conclusão de que nas regiões centrais tudo é mais arborizado e, aqui no Capão Redondo, não tínhamos tantas árvores”.

Democracia já   
Para Maria Virgínia de Freitas, coordenadora da área de juventude da ONG Ação Educativa, a gestão democrática proporciona ao aluno o desenvolvimento necessário para a vida em sociedade, de modo a aprimorar a capacidade de diálogo, lidar com as diferenças, saber respeitar decisões tomadas coletivamente e assumir responsabilidades. “Isso acontece porque uma vez que você participa da decisão, passa a ter mais responsabilidade sobre o que foi decidido”, reitera.

Susete acredita na humanização das relações promovidas pela participação. “A sala de aula fica humanizada, os alunos se valorizam mais como seres humanos, e a Educação como um todo tem muito a ganhar”. Maria Virgínia complementa que, quando o princípio de autonomia na participação é posto em prática, não quer dizer que a escola é dirigida pelos estudantes, mas sim respeitada.


Susete Mendes: "Acredito que o aluno aprende mais quando gosta da escola"                                     Foto: Pricilla Kesley/TPE

Segundo Eda, em uma escola democrática “não existem ilhas, ou jeitinhos. O que foi decidido em assembleia, até que se mude, terá de ser cumprido”. O desafio é as pessoas acreditarem nesse tipo de gestão. Susete complementa, “o caminhar de tudo isso vai ser bem lento. Os alunos também têm essa dificuldade, e alguns professores ficam meio perdidos e resistentes. Entretanto, precisamos apresentar os conceitos democráticos e debatê-los, para que a comunidade possa trazer também experiências que trazem de outros lugares”.

Hamilton Faria, mestre em Ciências Sociais e coordenador da área de Cultura do Instituto Pólis, vê na capacitação de professores e gestores para o diálogo uma forma de fomentar esse tipo de prática. “Tudo acertado em uma realidade dialógica, de reconhecimento da diferença, da diversidade, de outras experiências em vida”, afirma.

Donos de si
Seu Domingos se matriculou no Cieja do Campo Limpo com um sonho: aprender a ler e a escrever. Durante uma atividade em sala, a professora pediu aos estudantes para identificar o nome presente no RG e as letras que o compõem. Ao notar a dificuldade do aluno, a educadora viu que, no lugar da assinatura de Domingos, estava escrito “não alfabetizado”. Ela explicou para ele o que isso significa e mostrou em que lugar do documento o nome desse homem de 52 anos constava. “Ele ficou todo encantado com a descoberta e começou a querer escrever o nome em todos os lugares. Em uma sexta-feira, chegou com um novo RG nas mãos e com uma felicidade estampada nos gestos para mostrar a todos que ele sabia escrever o próprio nome e que, no novo documento, o nome dele não era ‘não alfabetizado’, e sim Domingos”, conta Eda, emocionada. “Foi incrível a alegria dele de ser uma pessoa alfabetizada agora. Ser dono do seu nome”.

Para Hamilton, a escola não pode ser um espaço só do conhecimento, ela deve estimular a criação de alicerces para que os alunos possam identificar os próprios quereres. “A vida escolar deve ser propícia ao protagonismo dos estudantes, ou seja, a constituição de um sujeito autônomo, com vontades próprias, que constrói planos individual e coletivamente”, explica. “Não tem possibilidade de a escola formar cidadãos e cidadãs se não for por meio de práticas de gestão democrática”, conclui Maria Virgínia.


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A intenção dos mestres é muito boa. Parabéns!
A questão maior de tudo isto é que falta aos Educadores assumirem a verdadeira intenção de Educar (do latim: educere tornar dócil) para formação de Cidadãos Conscientes de sua Missão no Planeta Terra que é de Construtores do Mundo Civilizado, no qual as pessoas sentem-se corresponsáveis pelo Bem de todos e não simplesmente uma educação que forma consumidores de produtos como acontece atualmente em 99,99% das escolas nacionais. O Ser Humano somente aprende a ser gente através de exemplos vivos e conscientes de seu papel de agentes de mudanças. Exemplo grave de deseducação: "diga não às drogas,"diga não à corrupção", "não coma muito". Há mais de cinquenta anos se sabe que como nosso cérebro não se sensibiliza com a partícula "não" , estamos jogando dinheiro e tempo fora para na verdade estimular o contrário.
Somos médico e Metre em Políticas Públicas e Sociedade e Voluntário da MOA: www.moa.org.br

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