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Um aluno integral e integrado

30 de junho de 2016
Como a secretaria municipal de ensino de Itabira, interior de Minas Gerais, está montando um plano de Educação Integral ouvindo os alunos

Um aluno integral e integrado
Pricilla Kesley/TPE




Pricilla Kesley, do Todos Pela Educação

“É desorganização, é bagunça. Vocês querem que os alunos falem mal da gente, vocês querem colocar os alunos contra nós. Política tem que vir da secretaria. ”

Foram em frases como essas que a secretaria municipal de ensino de Itabira, interior de Minas Gerais, a 110 quilômetros da capital mineira, esbarrou quando decidiu incluir toda a comunidade na elaboração do Plano de Educação Integral para a rede. A mesma cidade que serviu de berço a Carlos Drummond de Andrade, autor de poemas como A Rosa do Povo (link), sobre liberdade, participação; sobre ter voz.

“Mais do que uma resistência deliberada a ideias democráticas, falta o entendimento da criança como sujeito de direito, que fala, que se expressa”, pondera Gustavo Alexandre Martins, superintendente pedagógico da rede e psicólogo de formação.

Desfazer esse nó comunicacional está no centro da ação realizada em parceria com a Fundação Itaú Social e o Centro de Estudos e Pesquisas em Educação e Ação Comunitária (Cenpec) que, desde maio de 2015, vem promovendo encontros de escuta com alunos, pais, professores e gestores escolares itabiranos. O objetivo é sistematizar metas e estratégias para nortear a Educação Integral do município tendo por base as contribuições desses atores. Entre os planos estão o aperfeiçoamento dos projetos pedagógicos das 14 escolas municipais que já funcionam com tempo ampliado e, no futuro, estender as práticas para outras unidades.

Trabalhando na perspectiva local, o processo de elaboração do plano tem levado em consideração questões caras à cidade, representadas em três eixos:

- Educação, sustentabilidade e meio ambiente.
- Corpo, movimento e brincar.
- Cidade e cultura.


Oficina de escuta com alunos do Ensino Fundamental realizada pela comunidade Cenpec                                           Foto: Cenpec
 

Mais tempo não é mais Educação

Há dez anos, Itabira inaugurava a primeira escola de Educação em tempo integral do município. Mas as perspectivas positivas sobre o modelo não se concretizaram. Com iniciativas fragmentadas, o tempo ampliado restringiu-se a isso: mais tempo. Um dos grandes problemas era a descontinuidade; ações ora atreladas ao Programa Mais Educação do Governo Federal ora a programas municipais resultavam em monitores com vínculos empregatícios diversos e alta rotatividade.

“Não tinha como administrar e acompanhar os resultados daquilo”, explica Débora Tersália, técnica da rede municipal e uma das responsáveis pelos grupos de escuta. “Demos um primeiro passo, em 2014, com a eliminação dos diferentes contratos. Para diminuir a rotatividade, incorporamos a mão de obra dos monitores via contratos temporários”.

Mas isso não foi o suficiente, pois a secretaria queria mais organicidade; diante disso, naquele mesmo ano, Débora e outros técnicos da Educação propuseram a construção de diretrizes para toda a rede e convidaram as instituições para colaborar com a iniciativa.

Ouvir para mudar

A semente para a elaboração de uma política mais democrática nasceu alguns anos antes, em 2013, quando a secretaria de Educação elaborou encontros com estudantes para debater temas transversais.

As reuniões aconteciam no gabinete, diretamente com a secretária municipal e outros técnicos. “Montávamos o processo de mobilização com esses alunos representantes: o que eles queriam ouvir, qual a visão de futuro que eles tinham”, conta Luciane Maria Ribeiro da Cruz Santos, secretária municipal de Educação. Os adolescentes eram então encarregados de levar essas pautas às escolas e trazê-las de volta à secretaria com as observações dos demais estudantes. Desse arranjo, resultaram os encontros anuais com todos os estudantes dos Anos Finais do Ensino Fundamental, em 2013 e 2014, interrompidos por falta de verba.

“Queríamos ouvir todos, não apenas uma amostra. Foi importante para entender qual o interesse desses jovens, o que eles pensam”, pondera a técnica Débora, presente em todos os grupos de discussão.

Essa proximidade com os alunos foi fortalecida pela elaboração, em 2015, do Plano Municipal de Educação (PME) – uma exigência do Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em 2014 – na qual a participação da comunidade foi fundamental.


O valor do diálogo

“A gente brinca que é o aluno que se torna integral, e não a escola”, sorri Débora ao abordar as diferentes concepções do termo. Um dos equívocos, acredita ela, a raiz da ineficiência da ampliação da jornada na rede é a multiplicidade de interpretação do tempo integral. “Queremos que toda comunidade escolar entenda que vai além de ampliar o tempo; estamos tentando trazer outras temáticas: espaço, currículo, outras formas de se relacionar”.

Luciene concorda. Para ela, dar mais autonomia aos alunos favorece o próprio processo de aprendizagem. “A responsabilidade nasce da autonomia, quando o aluno participa da formulação de uma política, ele se torna corresponsável por ela. Em vez de fazermos para eles, fazemos com eles”.

Ex-presidente do Conselho Municipal de Educação e ex-professora da rede pública, Luciene sabe o valor da crítica dos estudantes.  “Sou muito crítica com a Educação, insatisfeita. Acho que os meninos questionam até pouco perto do que a realidade pede”, afirma. Para ela, a Educação deve acompanhar as mudanças da sociedade. “Os jovens têm acesso a informações. Hoje, por meio da mediação direta sobre o conteúdo, é possível construir conhecimento. Esse aluno mais aberto mostra que a escola pode ser diferente do que é”.

Diferente para melhor. “Uma Educação mais aberta, menos massificada, que equilibre a lógica de universalizar a oferta com personalizar o resultado: dar o máximo de oportunidades, mas permitir que cada um construa uma trajetória pessoal ali dentro”, defende. “E o gestor público tem a obrigação de trabalhar nessa direção”.

Construir políticas educacionais que aproveitem essa energia jovem e respeitem as inclinações individuais, no entanto, passa por dificuldades: formação deficitária dos profissionais que não dialogam, infraestrutura inadequada para promover debates regulares, falta de mecanismos de participação institucionalizados  são alguns exemplos apontados por Júlio Neres, técnico do Núcleo de Educação Integral do Cenpec, que tem coordenado as ações de escuta.

Itabira não é exceção. Entretanto, a rede de 36 escolas (incluindo creches) tem atuado para quebrar algumas dessas barreiras, por exemplo, apostando em formação in loco com os professores. “Há sempre uma resistência dos professores. Tentamos mostrar a eles que quando vamos lá escutar esses meninos, eles nos dão material, que isso não é uma ameaça. Uma reação que o estudante tem com a professora vai revelar uma condição de identificação que ele tem com a figura feminina fora da escola. Então não se trata de destituir o conhecimento do professor, mas fornecer elementos para ele ampliar sua ação”, explica o superintendente Gustavo.


Cartaz confeccionado durante oficina de escuta                                                                                                       Foto: Cenpec


O que eles querem

“Nós entrávamos nas salas com cerca de 30 alunos com um estetoscópio de médico nas mãos: a brincadeira era sobre ouvir o coração, mas também sobre a importância da escuta com os alunos”, relembra Júlio.

Ele integrou inúmeras oficinas de escuta, cujo objetivo é construir não um plano de Educação Integral, mas um aluno integrado. Nesse processo, o grupo de especialistas já ouviu pais, alunos e professores. A ideia é saber onde esses alunos moram, o que eles e seus familiares esperam da escola e da Educação em tempo integral e o que os professores acham de tudo isso.

Atualmente, a secretaria está na fase de encontros com os diretores escolares e, em agosto, devem consolidar um plano com metas e estratégias que será submetido à comunidade escolar. “Teria sido muito mais rápido ter feito isso dentro da secretaria, mas tem que ser discutido, temos que criar essa capilaridade”, analisa Débora.

Outra ação programada é a formalização dos canais de escuta nas escolas. Embora haja um esforço da secretaria em se aproximar, faltam espaços que viabilizem o fluxo de participação dos estudantes.

“Muitas vezes sabemos que precisamos ouvi-los, mas essa escuta não chega em tempo hábil. É preciso integrar essa escuta ao fluxo em vez de fazê-la em um momento separado”, opina Luciane.

Os encontros revelaram que esse é mesmo o caminho, porque não, a escola ainda não conhece seus frequentadores. “Faltam dados de realidade para a escola, ela vai se ilhando dentro dela mesma. Nas atividades de escuta, os alunos pediram por acampamentos dentro das unidades escolares, pediram por jornais, promover assembleias, que se incluíssem os alunos no preparo da merenda – isso é altamente revolucionário”, pontua Júlio.

 


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