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Os impactos do analfabetismo funcional

28 de julho de 2016
Inaf 2016 traz resultados por área e apresenta nova escala de níveis de alfabetismo




Recém-lançada, a edição de 2016 do Índice Nacional de Alfabetismo Funcional, iniciativa do Instituto Paulo Montenegro (IPM) em parceria com a Ação Educativa, trouxe novidades em relação às edições anteriores. A versão mais recente da pesquisa foi desenhada para permitir leituras focadas em quatroáreas que ajudam a melhor compreender como as limitações no domínio das habilidades de alfabetismo impactam a vida das pessoas e da sociedade brasileira em diferentes dimensões. São elas Alfabetismo e Mundo do Trabalho, Alfabetismo e Comportamento Financeiro, Competências Socioemocionais na Vida Adulta e Alfabetismo no Contexto Digital.

Em parceria com o Todos Pela Educação, o IPM promoveu em São Paulo, no início deste ano, um ciclo de debates sobre os quatro temas. Para cada encontro, o instituto convidou um especialista que analisou os dados da pesquisa em relação ao tema e debateu com os convidados. A seguir, você conhece os principais pontos dessa análise, os principais dados dos estudos e trechos em vídeo dos encontros. Aqui você tem acesso às apresentações completas.

O Inaf é construído com base em metodologia que permite estimar os níveis de alfabetismo da população e compreender seus determinantes. Realizadono Brasil desde 2001, é baseado em entrevistas pessoais com a aplicação de um teste cognitivo a uma amostra representativa da população brasileira de 15 a 64 anos, em todas as regiões do País, incluindo as zonas urbana e rural.O Inaf contempla duas dimensiones do Alfabetismo, o letramento e o numeramento. O letramento é definido pela habilidade de ler e escrever diferentes gêneros e suportes, com coerência e compreensão crítica. O numeramento, por sua vez, é a habilidade de construir raciocínios e aplicar conceitos numéricos simples, de usar a matemática para atender às demandas do cotidiano.

Desde 2001, a cada edição da pesquisa o Inaf vem mostrando uma redução nos níveis mais baixos de proficiência (analfabeto e rudimentar). Estes avanços, porém,nao se reproduzem no topo da escala do Inaf:há uma crescente ampliaçao da proporçao de pessoasno nível básico e uma estabilidade no nível pleno.

Buscando agregar maior clareza na compreensao das habilidades de cada nivel de alfabetismo, nesta última ediçãoo Inaf passa a adotar5 níveis de alfabetismo: os níveis Analfabeto e Rudimentar – que em conjunto definem os Analfabetos Funcionais – permancecem constantes e comparaveis com as edicões anteriores. Já o grupo dos Funcionalmente Alfabetizados passam a ser apresentados em trêsníveis, Elementar, Intermediário e Pleno.

Alfabetismo no Mundo do Trabalho
Ao relacionar as habilidades e práticas de letramento e numeramento à situação de trabalho dos brasileiros entre 15 e 64 anos, este estudo especial mostra como os diferentes níveis de alfabetismo influem nas diferentes ocupações, níveis hierárquicos e tipos de relação de trabalho, provocando reflexões sobre como as limitações de alfabetismo podem ter impacto sobre a tomada de decisão, a produtividade e a competitividade da economia brasileira.

Observando os resultados por ocupação e nível hierárquico, surpreende o fato de que apenas 11% dos entrevistados identificados como empresários, empreendedores ou microempresários foram classificados como proficientes, o nível mais alto da escala. Também é baixa a porcentagem de proficientes (22%) entre as pessoas que ocupam cargo de gerência no setor público ou privado. Os índices mais altos de analfabetismo funcional estão no setor econômico rural (70%), no setor de serviços domésticos (42%) e entre os trabalhadores da construção civil (41%). Tais resultados comprovam que são ainda maiores os desafios para o crescimento e o aprimoramento desses três setores.

Para debater os impactos do analfabetismo funcional no mundo do trabalho o IPM convidou o economista e cientista social Eduardo Giannetti, que analisou os resultados da pesquisa do ponto de vista econômico e social. Acompanhe suas principais reflexões.

“O Inaf incomoda as autoridades porque mostra uma realidade que ninguém quer ver. Estamos cronicamente com 27% da população adulta na faixa dos analfabetos funcionais. É praticamente um terço da população. Então não adianta comemorarmos a quase universalização do acesso à Educação, porque não estamos universalizando as competências.No Ensino Médio, 57% estão na categoria analfabeto funcional, mais da metade. O Ensino Fundamental não está cumprindo sua função mais elementar. Melhorar a Educação Básica é o maior desafio civilizatório do Brasil. E não é só a escola que deixa a desejar. A família e as empresas também. A família é muito pouco atenta à importância da Educação. E as empresas são displicentes, pouco voltadas para a importância que a Educação tem para elas mesmas”.

“Destaco também a presença de contingente expressivo de não alfabetizados funcionais na Educação Superior. 38% dos alunos não são plenamente alfabetizados nessa fase. É um engodo. E boa parte desses alunos vem de escolas pagas. Esses jovens estão sendo pilhados de seu futuro. Não adianta ficar feliz com o acesso ao ensino superior. A pessoa sai com um diploma que não tem lastro. É uma inflação de diplomas. Uns fingem que ensinam, outros que aprendem e tudo termina em diploma. Para piorar a situação, o jovem de família pobre, quando chega à Educação Superior, tem de pagar por uma escola que provavelmente não está preparada para oferecer o que vende. E os ricos estudam na Educação Superior pública, gratuita. Hoje, um terço do orçamento da Educação é para os ricos.”

“Se olharmos para o mundo do ponto de vista econômico, há três categorias de países (alta, média e baixa), quando o critério é a produtividade por habitante. O Brasil está no meio. Um cidadão brasileiro cria um valor ao ano, em média, que corresponde a um quarto do valor criado por um cidadão de um país desenvolvido. Nos países de baixa produtividade, essa relação é de um para oito. Não é porque o trabalhador do país desenvolvido trabalha mais horas. É uma questão de produtividade. Os brasileiros trabalham até mais horas,mas o valor criado numa hora é diferente”.

“Uma variável de primeiríssima ordem que explica essa diferença é o chamado estoque de capital do trabalhador. Economistas clássicos olhavam para capital físico. Trator, enxada, meios de transporte. Economistas a partir do final do século 19 passaram a considerar também o estoque de capital humano, ou seja, habilidades, competências, capacidade de processar informação. E afirmam que, nos Estados Unidos, por exemplo, cerca de dois terços dessa capacidade produtiva é dada pelo capital humano. Diferentemente do capital físico, o capital humano é resultado de investimento prévio visando algum tipo de retorno. É uma transferência do presente para o futuro. E por que humano? Porque o físico é um ativo externo que pode ser transacionado. A máquina, o equipamento, o prédio. O capital humano não é transacionável. É indissociável da pessoa”.

“No Brasil, se investe pouco nessa formação. A rotatividade é calamitosa. O contrato de trabalho é um pesadelo. Não à toa, há 2 milhões de ações trabalhistas por ano, um recorde. Em apenas um grande banco de varejo brasileiro há mais ações trabalhistas do que em toda a economia norte-americana. A elite não está atenta, está muito protegida e numa situação de mercado confortável. Temos de caminhar para um universo de mercado de trabalho muito mais arejado, onde haja menos litígio, um ambiente mais tranquilo para todas as partes. É por isso que a economia informal é tão grande.O problema é que um terço da força de trabalho acaba não tendo qualquer direito”.

Alfabetismo e Comportamento Financeiro
Os dados dessa análise especial descrevem o perfil dos usuários de vários serviços financeiros e de crédito em termos de suas habilidades de leitura, escrita e matemática, contribuindo para perceber os impactos das limitações de alfabetismo em mais esta importante dimensão da vida dos consumidores, poupadores e empreendedores brasileiros.

O estudo, feito com base na mais recente edição do Inaf,mostra que há uma tendência de as pessoas acima dos 40 anos concentrarem a tomada de decisões financeiras na família. Ocorre que é justamente nessa faixa etária que se encontram a maior parte dos analfabetos funcionais. “Esse é um efeito perverso, porque essas pessoas com menor habilidades de letramento e numeramento têm menos condições de entender o contexto no qual estão tomando as decisões financeiras, não conseguem ler um contrato que vão assinar ou entender as regras de um carnê de uma loja”, afirma Ana Lima, do IPM. Já entre os proficientes, essa responsabilidade é mais compartilhada entre membros da família.“Mas é possível fazer aqui a leitura de que os mais jovens – que são mais alfabetizados porque estão tendo mais acesso à Educação – não se envolvem tanto nas decisões financeiras da família, apesar de já terem mais condições de compreensão do contexto”, analisa Ana.

Os dados mostram também que, no geral, os homens afirmam com mais frequência (50%) que são eles os responsáveis por decisões financeiras da família. Já entre as mulheres a opção mais citada (31%) é a responsabilidade compartilhada com o cônjuge.

Os números apontam ainda que, entre os analfabetos funcionais, 74% têm pelo menos uma conta em atraso. Entre os funcionalmente alfabetizados, 21% estão com alguma dívida.

Em relação àqueles que fazem algum tipo de poupança, mais da metade (58%) são considerados analfabetos funcionais. “Portanto, é preciso pensar como podemos subsidiar melhor essas pessoas no momento de oferta de produtos financeiros, nas políticas públicas, nos processos de educação financeira, para que tenham melhores condições de tomar decisões”, afirma Ana Lima.

Para o economista Caio Megale, do Banco Itaú, convidado pelo IPM para comentar os resultados da pesquisa, o Brasil perdeu uma oportunidade,há alguns anos, de construir as bases de um desenvolvimento mais sustentável. Veja seus principais comentários:

“Há cerca de 4 anos, quando experimentamos um crescimento econômico pujante, tivemos um apagão de mão-de-obra. Faltava gente. Tinha demanda, o país crescendo, mas os empresários afirmavam que não conseguiam produzir mais porque não conseguiam contratar gente qualificada. Hoje, com a crise, temos desemprego. Os custos de produção cresceram demais e a demanda está caindo. O empresário precisa cortar custos e entãodemite.”

“Mas se tivéssemos tido mais preocupação com a Educação nos anos anteriores, conseguiríamos passar pela crise de forma menos traumática, porque o crescimento teria sido mais sustentável. Agora, nossa projeção de desemprego para o final do ano é de 12 ou 13%. E não me refiro à Educação no modelo coreano, mas a umaEducação também das habilidades não-cognitivas.”

“Esse ambiente de crise torna a Educação financeira ainda mais importante, porque o dinheiro vai ficar cada vez mais curto. Há iniciativas boas do próprio Banco Central e dos bancos comerciais, no sentido de formar melhor a população para as questões financeiras. O que menos queremos é que o cliente se endivide muito, quebre e deixe de ser nosso cliente. Crédito numa primeira dosagem, é remédio, ajuda no crescimento, mas se aumentar muito vira veneno. O crédito é bom, mas precisa ser sustentável.”

“A informação está chegando mas não está se traduzindo em atitude. As crises acabam ensinando. O trauma talvez seja positivo no futuro. Nos anos 2000, o mercado de crédito sobre o PIB era de 20%. Hoje chega a 60%. Foi uma subida muito rápida e oprocesso está sendo doloroso. Mas acho que vamos aprender muito com isso.”

“Outro ponto que destaco é que as empresas não se preocupam muito com a Educação financeira dos seus funcionário. As iniciativas praticamente não existem. Lá no banco nós temos fazemos uma pesquisa sobre o bem-estar da população, que inclui diversos fatores, além do poder de compra e do consumo. Por exemplo, índices de poluição, trânsito, segurança, acesso à Educação, desigualdade de gênero. E um dos pontos principais pontos que fazem o índice cair é o estresse de não conseguir pagar as contas. Isso ‘mata’ o cidadão. E esse estresse passa para o dia a dia do trabalho. Ele vai produzir menos e vai afetar a produtividade da empresa.”


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