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"Quando a escola é mais acolhedora, ela dialoga melhor e põe processos de mobilização em marcha"

27 de julho de 2016
Em entrevista ao Todos Pela Educação, a técnica do programa Jovens Urbanos do Cenpec Lilian Kelian fala sobre mobilização juvenil e participação democrática na escola

João Bittar/MEC




Pricilla Kesley, do Todos Pela Educação

Desde as ocupações das escolas pelos estudantes secundaristas de vários lugares do País, muito se falou sobre o protagonismo juvenil na atualidade. Para Lilian Kelian, técnica do programa Jovens Urbanos do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), os jovens brasileiros estão avançando em relação a uma convivência mais democrática. Segundo ela, a atual onda de conservadorismo que se vê em movimentos pelo mundo não devem permanecer por muito tempo.

Abaixo, leia a entrevista que ela concedeu ao Todos Pela Educação. 

TPE: Qual a importância de os especialistas em Educação ouvirem esses jovens?
Lilian: Andei visitando um pouco as ocupações no ano passado e senti que a gente ainda precisa de mediação para se aproximar mais (desses jovens). No ano passado, eles estavam em um movimento diferente, ainda envolvidos na luta em si, sem muita clareza e vontade de discutir a escola como política pública. Neste ano, vejo que eles estão dando uma virada... estão pensando mais no que pode ser essa escola.


Ocupações e greves são instrumentos radicais de participação?
São instrumentos radicais no sentido de ir até a raiz do problema. As ocupações têm uma radicalidade interessante, pois quando os jovens começam a ocupar os espaços da escola, há problemas práticos para eles resolverem. Dá a eles repertório para uma escola onde eles querem estar, onde eles querem até mesmo dormir. Quando você tem uma comunidade escolar feliz, não tem tanta distância entre a vida e a escola. A vida acontece na escola e a escola se prolonga para as crianças e os jovens. A ocupação traz esse sentido comunitário e poderoso.


O que tem de diferente entre essa minoria que promove as ocupações e os demais alunos?
Não sei se tem tanta diferença. Não sabemos o que esses jovens pensam, apenas sabemos que eles não estão presentes nos atos políticos visíveis. Podemos supor que sejam contra ou que não se decidiram ainda O que tem de diferente nesses jovens que estão ocupando é que eles acham que vale a pena enfrentar alguma briga pela escola. Não sei o que está passando pela cabeça dos outros, mas talvez muitos não tenham muita esperança e estão pensando um pouco com fatalismo do tipo: ‘bom, a escola é isso, não vamos esperar mais porque não vale a pena e o que interessa é a gente se formar e sair daqui com nosso diploma’. Talvez eles sejam mais pragmáticos. Há o desafio dentro da democracia de fazer a escuta e é importante saber o que está passando pela cabeça dos jovens que não estão se mobilizando.


Como fazer que esse poder juvenil seja constante? Como aproveitar esse potencial em favor da Educação?
Não é o que a gente pode fazer para usar esse potencial mobilizador, mas o que a gente pode fazer para reconhecê-lo e ampliá-lo. Para isso, é preciso ter instâncias fortalecidas no interior das escolas: um grêmio que seja atuante, espaços que sejam políticos e não institucionais e onde haja acolhimento da cultura deles, das músicas que gostam de ouvir e compor. Quando a escola é mais acolhedora, ela dialoga melhor com o território e põe esses processos de mobilização em marcha. A escola poderia ser isso e é fundamental que ela seja.


Os alunos ocupados têm um discurso voltado para uma Educação libertária, de negação da instituição. Quais são os limites para a participação democrática dos alunos?
É um desafio responder essa pergunta. Mas eu diria que a gente precisa começar pensando que essa descrença em relação às instituições precisa ser revertida. Sem acreditar nas instituições, é muito difícil atuar e participar dentro delas. A descrença deles é compreensível, pois estamos em um momento maior que a crise na Educação, um momento de crise política e isso se deve ao mau funcionamento das instituições democráticas. As leis existem, há uma Constituição muito avançada; mas, na prática, interesses particulares se apropriam das instituições públicas. Não há bons mecanismos de escuta, as opiniões divergentes nunca se conciliam. Ou seja: não é à toa que existe a descrença. Por outro lado, as conquistas só se sustentam quando elas se instituem. Os limites vão sendo descobertos na construção democrática. Como essa construção tem que envolver educadores, gestores, pais e alunos, desses conflitos emerge um equilíbrio.

O que precisamos é tomar cuidado quando a gente critica essa lógica autoritária vigente nas instituições. Fazer isso é, talvez, cair em uma forma radical em um absenteísmo dos adultos. Isso seria cômodo para os adultos, pois eles não teriam de assumir uma função: de ensinar os alunos.

A democracia tem de funcionar (entre o que os professores sabem fazer e o que os alunos querem estudar) para que esses conflitos se resolvam e todo mundo possa se desenvolver melhor. Em uma escola, não dá para pensar em uma imagem totalmente horizontal porque cada um tem uma função diferente; então o aluno está ali como alguém que pesquisa e o professor, apesar de também aprender com o aluno, está lá para proporcionar condições aos alunos. São responsabilidades diferentes. Os limites serão construídos no limite dessas responsabilidades.


Há alguma coisa que as mobilizações estudantis recentes têm a aprender com os movimentos estudantis das décadas de 60,70 e 80?
Fazendo uma divisão bem grosseira das juventudes, houve a juventude mais revolucionária – dos anos 60 – que quis tomar o espaço. Mas não foi só a juventude naquele momento, era muito maior. Depois teve a dos anos 80, com ideia de crescer como um partido e mudar o governo por dentro. Finalmente, tem essa nova com uma visão de hackear a instituição. É uma pressão que opera de fora mas com conhecimento de como a instituição funciona e de como as estruturas internas da instituição podem ser usadas a favor das causas.

Há uma potência que na juventude atual que é a de utilizar bem a comunicação nas redes sociais. Esta é uma invenção deles: uma comunicação rápida, que dribla os grandes canais que distribuem a notícia, oferece diretamente conteúdo e faz vídeos engraçados que mobilizam as pessoas. Tanto que foi um movimento que ganhou a simpatia das pessoas e ganhou apoio para além das pessoas do campo da Educação.

Eles conseguiram angariar mais simpatia para a escola pública que os técnicos da Educação...
Sem dúvida. Há uns dois anos, eu me envolvi mais com a redução da maioridade penal e vi que a gente não fala mesmo com a sociedade. Há realmente um gap de comunicação. Os jovens estão reinventando isso. Não dá para eles explicarem todo dia, para todo mundo, todo o processo da reorganização.. então eles foram por partes, com estratégias de comunicação muito fortes: vídeo, paródia, música, foto, caricatura. Eles vão formando essa imagem na cabeça das pessoas que estão longe do movimento e isso é muito inteligente. É uma estratégia de comunicação que conhece bem o mecanismo da rede, porque nesse espaço você não vai ler um artigo imenso.
 

Estamos passando por uma situação singular no Brasil: temos por um lado mobilizações estudantis, reivindicações por mais participação e, por outro, projetos de lei que querem proibir diálogos sobre sexualidade, política e religião nas escolas. É possível falar de uma sociedade democrática sem que a escola esteja aberta para debater esses assuntos?
Não é coerente uma sociedade democrática que não pode falar sobre gênero, racismo, aborto, ou qualquer coisa. Acho que isso é a antidemocracia. Se você olha para os jovens, que são a sociedade do futuro, você vê muitas coisas resolvidas nesse sentido. São movimentos bastante marcados pela discussão do feminismo.. tem lideranças feministas fortes. Pode não estar tudo resolvido, mas eles estão falando sobre isso, criando repertório para pensar sobre isso. Houve várias discussões sobre quem deveria cozinhar nas escolas e teve discussões importantes sobre uso de banheiros. Os jovens estão avançando em relação a uma convivência mais democrática. Acho que essas ideias conservadoras vão ficar ultrapassadas rapidamente. Pode não se falar das questões de gênero no currículo escolar, mas os jovens vão continuar com essas questões, o currículo não é tudo. O que fica evidente nessa situação é que o currículo não atende aos interesses dos alunos. Tem uma coisa entre escola e sociedade que transborda e não vai deixar de ser discutida porque tiraram do currículo. Mas claro que, do ponto de vista institucional, ver essas propostas de lei tramitando é uma derrota.


Há uma reação forte dos professores a essas propostas...
Sim, é o momento de todo mundo defender a liberdade do professor. Quem pensa A ou B tem que defender que se possa falar A ou B de acordo com suas convicções. O bom é que eu vejo essa moçada crescendo e vejo outra sociedade, em que essas questões talvez nem sejam mais colocadas e que essas leis todas virem letra morta.

Leia mais reportagens do TPE sobre o tema clicando aqui. 


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