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No Paraná, parceria escola-universidade garante formação continuada de sucesso

27 de julho de 2016
Programa de Desenvolvimento Educacional garante licença remunerada para que professores possam estudar

No Paraná, parceria escola-universidade garante formação continuada de sucesso
Hedeson Alves/Agência Estadual de Notícias




Pricilla Kesley, do Todos Pela Educação

Com uma carga horária de trabalho média de 54h semanais, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o professor brasileiro tem que acomodar todas as obrigações atreladas à função do magistério em uma agenda apertada: preparar e ministrar aulas, correção de trabalhos e provas, atividades administrativas, participação nas atividades pedagógicas da escola.

Em meio a toda essa correria, onde arranjar tempo para aperfeiçoamento profissional? De acordo com levantamento do Todos Pela Educação, em 2014, apenas 31,6% dos professores da Educação Básica participaram de algum curso formativo. Mas não é só de disponibilidade que sofre a formação continuada docente. Há ainda os problemas de qualidade e avaliação dessas políticas.

Para driblar esses entraves, o governo estadual do Paraná mantém, desde 2007, o Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE), que aposta na parceria universidade-escola e no afastamento remunerado para a formação de professores.

“É um projeto da escola e não individual”, aponta Eziquiel Menta, diretor da superintendência de Políticas e Tecnologias Educacionais da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEEP).

“Políticas de formação continuada que não dão subsídios – em tempo e financiamento – têm evasão. Porque ninguém aguenta, é exaustivo. O professor tem que se deslocar, tem gastos e sabemos que eles ganham pouco, tira daqui e coloca ali”, critica Gláucia Brito, doutora em linguística e professora orientadora do programa na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Como prática bem-sucedida, em 2010, o PDE foi institucionalizado como política pública de formação continuada dos professores paranaenses. São ofertadas 2 mil vagas em onze instituições de Educação Superior públicas do estado.
Por estreitar laços entre Educação Superior e redes básicas de ensino, o programa é uma das iniciativas destacadas pela pesquisa "Formação de Professores no Brasil", realizada pelo Todos Pela Educação, com apoio do Itaú BBA e do Instituto Singularidades, e que teve coordenação do professor e cientista político Fernando Luiz Abrucio, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo.

“O PDE é inovador porque ele permite aquele professor que está há anos em sala de aula receber uma licença para estudar e pensar sua ação”, aponta Gláucia.

De volta à universidade
Marcelo Costa é um dos educadores participantes da edição do PDE deste ano juntamente a mais 1870 profissionais. São professores, gestores educacionais, pedagogos ou funcionários da secretaria de Educação do Estado do Paraná.

A seleção foi concorrida. O PDE é ofertado para os servidores do quadro próprio do magistério (QPM) que estejam no nível II do plano de carreira estadual, categoria que hoje soma cerca de 45 mil profissionais. E não é só isso: a triagem também leva em conta o histórico dos concorrentes, dando prioridade àqueles que tenham participado de eventos da secretaria e realizado cursos nos últimos 12 meses. O objetivo é investir em educadores públicos que querem continuar aprendendo.

Concursado há 10 anos, Marcelo exerceu a função de docente de Educação Física por dois anos antes de trabalhar com elaboração de material tecnológico para a rede básica na SEED–PR. Ele está afastado do cargo para participar do programa, que vem sendo, para ele, um reencontro com a sala de aula como professor e como aluno. Ele já desenhou o Projeto de Intervenção Pedagógica que aplicará no colégio estadual Emílio de Menezes: Tecnologias Educacionais e Objetos de Aprendizagem, inspirado na experiência de trabalho que desenvolveu na SEED, onde formulou material multimídia didático. “Há muito material sobre tecnologia na Educação, mas muito pouco quando se fala de aplicação em Educação Física”, explica Marcelo.

Tempo
No primeiro ano do programa (a duração total é de dois anos), o professor PDE é afastado 100% de suas funções, mas com remuneração integral. No segundo período, o educador tem 25% de carga horária remunerada livre. Essa foi a configuração que o governo estadual achou para dar resposta a três grandes questões da formação continuada: tempo, incentivo e participação da escola.

“Eu tiro o professor da sala de aula, mas ele continua com o salário dele. Nós pagamos professores substitutos e também custeamos o deslocamento dos professores que estão longe das universidades. É um investimento bem alto, mas é uma experiência única no Brasil”, salienta Eziquiel. O diretor destaca também a evolução no plano de carreira como um atrativo do programa. “O professor PDE sobe para o nível III e passa a ganhar R$ 4.800,00 reais por 20h”.

Assim, com tranquilidade, o participante pode mergulhar nos estudos, pesquisar e articular com a escola um projeto de intervenção pautado no cotidiano escolar. “Já falei com diretor, coordenação pedagógica e equipe, e também já li os documentos oficiais da escola. Em todas as etapas, estamos juntos”, relata Marcelo. Além disso, o professor tem que assistir aulas na UFPR e aulas online de outras instituições públicas, totalizando mil horas de formação.

Em 2017, o professor Marcelo passará para a segunda etapa do programa, onde colocará em prática o uso de tecnologias educacionais nas aulas de Educação Física no colégio e ministrará aulas. “Farei uma formação de 34h com os professores da disciplina, além de dar aulas. A ideia não é que o professor de Educação Física veja que os outros espaços da escola – como o laboratório de informática – também podem ser integrados ao ensino. Se o aluno não pode fazer canoagem, ele pelo menos tem o direito à informação”, pondera. 

Ganha a escola, ganha a universidade
O caráter de rede do PDE tem início logo no preparo dos orientadores. Marcelo Silva da Silva, docente da Universidade Federal do Paraná e envolvido no programa desde 2011, afirma que essa preparação é feita em encontros formativos na universidade e na secretaria de Educação do Estado. Nesse intercâmbio de saberes, não é apenas o professor da rede básica que aprende. Marcelo comemora a visita da escola básica à universidade. “O diálogo com os professores PDE é muito revigorante, pois eles trazem toda a bagagem deles”, diz.

Na opinião do acadêmico, o programa também é importante para os alunos da formação inicial. “As pós-graduações são muito individuais. O PDE não. Você se qualifica, mas pensando na escola. Ele força o sujeito a pensar na prática dele e os alunos de graduação precisam muito disso, pois muitos deles acham que a formação inicial basta", ressalta. Desse encontro, boas surpresas surgiram. “Eu tinha dúvidas quanto à experiência do docente na produção escrita. Mas tive boas convivências. Eles são muito qualificados”.

Herança positiva e desafios
Para devolver à rede de ensino o conhecimento adquirido durante a formação do PDE, o professor tem outras tarefas além da intervenção na escola, como formular material didático, escrever um artigo científico e fazer tutoria em curso de formação continuada online (o chamado Grupo de Trabalho em Rede - GTR). Tudo isso no segundo ano de programa. 

O melhor aproveitamento do professor PDE egresso e dos projetos de intervenção pedagógica é um dos grandes desafios a serem vencidos pelos gestores do programa. “Estamos discutindo internamente como aproveitar melhor esse professor PDE, mas esse é um debate longo que deve ser feito junto com o sindicato”, pontua Eziquiel.

Uma das possibilidades é que esse professor seja mais "usado" pelas licenciaturas, pondera Dolores Follador, coordenadora de Articulação Acadêmica (departamento criado pela secretaria para pensar as iniciativas de articulação universidade-escola). "Atualmente, isso depende da vontade de cada orientador", diz ela.

Falta também maior aproveitamento interno. “O programa precisa ser melhor aproveitado na rede, não só no durante, mas depois. Para este ano, fizemos uma alteração no edital e acrescentamos um termo de compromisso que determina que o professor PDE poderá ser, a qualquer momento, requisitado para fazer formação docente dos colegas", explica.

A articulação no caso de Marcelo Silva, contudo, vem sendo bem-sucedida; tanto que a escola Emilio Menezes quer incorporar as propostas do professor ao Plano Político-Pedagógico (PPP) da unidade. “A coordenadora pedagógica sugeriu incorporar a temática no próximo no PPP e na proposta curricular dos professores de Educação Física”, se alegra. “Por que a partir do momento que ele faz parte do PPP vai ficar na escola."

Expectativa
Ao colocar o educador da rede dentro da universidade, outro efeito colateral positivo do programa é reavivar a vontade de retomar os estudos. “Estava afastado há 10 anos da vida acadêmica, então devo confessar que esse retorno está me animando muito a voltar a estudar, principalmente minha linha de pesquisa sobre tecnologias educacionais”, afirma Marcelo Silva.

Ele também sublinha a valorização da aprendizagem contínua que o PDE proporciona. “Ao dar incentivo financeiro, o governo mostra ao professor que investir tempo nesse processo é positivo. Se o docente chegar na escola e parar de estudar, ele perde muito, porque as coisas ao redor evoluem”. E arremata: “O PDE fortalece a ideia de que a formação é um processo contínuo”.


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