Revertendo o jogo na Educação: como ser favorito dentro e fora de campo

POR 19 Jun, 2018

Especiais

Países asiáticos e europeus que estão na Copa podem inspirar o Brasil na melhoria da qualidade da Educação

Treino é treino e jogo é jogo. A frase, famosa no mundo do futebol, é bastante repetida quando se quer justificar uma performance decepcionante de um time que prometia muito. Ou seja: o treino seria uma coisa muito diferente do jogo em si. Esta é uma ideia que podemos ter do desempenho das seleções favoritas que registraram placares aquém do esperado na primeira fase desta Copa do Mundo.

 

Mas será que é isso mesmo? Os estudiosos do assunto dizem um grande não! O treino é parte fundamental do desempenho de um time de futebol na hora da ação. Assim, os maus resultados significam que a atividade tem sido conduzida de maneira equivocada e desvinculada dos desafios reais de uma partida.

 

Fora de campo, a reflexão é a mesma. No que diz respeito à Educação, treino certamente não é só treino. Aliás, a separação entre teoria e prática na vida educacional é a explicação para vários problemas. São justamente os países que desenvolvem políticas públicas (fazem o bom treino) ancoradas nos desafios reais da Educação (o jogo em si) que alcançam destaque em exames internacionais. Observar as boas políticas públicas dos países que estão ganhando a partida na Educação pode ajudar o Brasil a repensar nosso treino.

 

A partir de informações do Programa Internacional de Avaliação de Aluno(Pisa, na sigla em inglês), aplicado em 70 países, confira dois eixos importantes de sistemas educacionais de países presentes na Rússia que podem inspirar o Brasil a repensar seu planejamento tático educacional.  Realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Pisa é um exame trienal que avalia as habilidades de jovens 15 anos em três conhecimentos: leitura, matemática e ciências e fornece uma série de informações comparativas entre países.

 

1.Tradição na Base

Japão e Coréia do Sul se destacam em todas as áreas do Pisa. Diferentemente dos brasileiros, que têm pontuação de 377 (matemática) a 407 (leitura), japoneses e sul-coreanos têm desempenhos acima de 500 pontos, ficando à frente de alunos de nações desenvolvidas como Austrália e Suíça.

 

Um dos ingredientes desses bons indicadores está na tradição de desenvolvimento e revisão curricular. Apesar de a Educação japonesa ter sido estruturada no pós-Segunda Guerra Mundial, o currículo (definido pelo Ministério da Educação, Cultura, Esporte, Ciência e Tecnologia) é revisado com uma frequência de 10 anos. A versão que passou a vigorar em 2013 já está sendo revisada e as próximas mudanças passarão a ser aplicadas em 2020. O documenta orienta os objetivos e conteúdo específicos de cada disciplina e ano escolar.

 

Já na Coréia do Sul, o primeiro currículo surgiu em 1954 com o objetivo de unir o país em torno de uma identidade nacional. De lá para cá, outros seis documentos foram debatidos. Hoje o sistema passa pela implementação da segunda revisão do Sétimo Currículo. O foco dessa atualização é a criatividade e tem entre seus objetivos desenvolver “uma pessoa que procura a individualidade como base da construção de sua personalidade”.

 

Esse frescor curricular permite os sistemas educacionais da Coréia e Japão estarem sempre alinhados às inovações que estão em andamento no mundo, aspecto que seria fundamental também para a Educação brasileira, que tem iniciativas inovadoras boas, mas restritas a alguns locais.

 

Falando em inovação, o Portal Porvir fez uma lista de experiências inovadoras e inspiradoras em andamento nos 32 países da Copa. Confira.

 

2. Investimento na Profissão Professor

Outro aspecto inspirador está nas políticas docentes, muito valorizadas nos sistemas educacionais alemão e dinamarquês, por exemplo. Ambos apresentam desempenhos no Pisa na faixa dos 500 pontos em cada uma das áreas avaliadas pelo exame.

 

Os alemães se destacam pela diversidade de percursos formativos para os futuros professores, que são determinados de acordo com o tipo de escola em que o professor pretende lecionar. Com exceção daqueles que trabalham na Educação Elementar ou Especial, todos os docentes precisam estar habilitados para lecionar em, no mínimo, duas disciplinas. Em média, são 20 anos de dedicação aos estudos para lecionar nas escolas alemãs.

 

Na Dinamarca, a valorização do salário é um dos fatores que elevam o desempenho educacional. O país nórdico investe 5% do PIB na Educação Básica e paga um dos maiores salários da OCDE. Para o Ensino Fundamental, o pagamento anual é de US$ 45 mil e chega a US$62 mil no Ensino Médio. Nesse último caso, os ganhos dos professores superam a média salarial nacional. Outro aspecto que merece destaque é a constante reciclagem dos docentes dinamarqueses: eles continuam estudando mesmo depois da formação inicial.

 

Tais cenários contrastam com a realidade brasileira. Aqui, os professores ganham pouco mais da metade que os profissionais com a mesma formação, o que revela uma grande desvalorização salarial. Quando o assunto é a formação, o Brasil ainda precisa vencer diversos desafios na qualidade, principalmente referente aos estágios. Se queremos figurar entre os países que mais oportunidades educacionais oferecem a suas crianças e jovens, precisamos rever as estratégias táticas para nossos professores, profissionalizando a carreira docente.

 

Não há outro jeito: um País melhor só será construído dentro da escola sob a direção de professores felizes e bem formados. Educação Já!



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