Volta às aulas no contexto da Covid-19: É preciso escutar os professores

POR Pricilla Kesley, do Todos Pela Educação 13 Mai, 2020

Autonomia das escolas e prevenção à evasão estão entre os pontos importantes de um plano para o retorno escolar, apontam especialistas e educadores em evento online do Todos

Avaliação diagnóstica, recursos e articulação para apoiar as novas demandas de saúde, formação dos professores e apoio psicológico para docentes e estudantes. Essas são algumas das urgências quando o assunto é planejar a volta às aulas frente à pandemia do novo coronavírus, segundo os especialistas e os professores que participaram do Webinário “O Desafio da volta às aulas - a visão dos professores”, realizado pelo Todos Pela Educação no dia 11 de maio, e mediado por Ivan Gontijo, coordenador de projetos no Todos. O encontro foi a segunda parte de um debate que iniciou com um webinário que com especialistas e ex-gestores educacionais.

 

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Assista ao debate completo do Webinário com os professores:

 

 

Veja também a discussão com os especialistas:



Apesar do volume de demandas diante do cenário inédito, uma figura central na retomadas das aulas foi destaque na fala de todos os participantes: o professor, um dos temas abordados na Nota Técnica O retorno às aulas presenciais no contexto da pandemia da Convid-19: contribuições para o debate público, do Todos e base do encontro virtual. “O professor é quem fará o contato entre de tudo aquilo que a gente debate com o aluno na sala de aula. Por isso, precisamos colocar os docentes como os agentes mais importantes de implementação”, pontuou Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos.

 

Sobrecarregados frente à disseminação do vírus e suspensão das aulas, eles terão pela frente demandas novas ao lado dos velhos conhecidos desafios do dia a dia da escola pública, como a evasão por desconexão com a escola.  “O distanciamento social e a suspensão das aulas trouxeram os desafios em massa, mas eles já existiam. Quando sairmos do isolamento, muitos meninos continuarão isolados, pois muitos se constituem em ilhas dentro da escola. A evasão não acontece só porque eles vão embora da escola, muitos evadem mentalmente e é preciso, nesse momento, saber como lidar com essa galera”, analisou a coordenadora pedagógica Janaína Barros, da rede estadual da Bahia.

 

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Material de referência para professores e redes de ensino

Há urgência em se debater o retorno às aulas e o material elaborado pelo Todos pode ser um ponto de partida, garante Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas (Ceipe/FGV). Para ela, o planejamento a distância com os professores deveria incluir o documento para disparar de reflexões. “Sugiro que essa nota seja discutida em todas as redes, com contribuições dos educadores por rede sobre assuntos como: o que eu é possível fazer para evitar evasão, como garantir a aprendizagem de todos em um sistema de recuperação, como garantir um acolhimento adequado, como ter um olhar diferenciado para a Primeira Infância e até mesmo as estratégias de rodízio de alunos”, pontos de dúvidas que vão ao encontro das ansiedades colocadas pelos professores neste momento.

 

O professor Pedro Cavalcante, do Ensino Fundamental II na rede estadual de Mato Grosso do Sul, sublinhou a relevância de uma das propostas apresentadas no documento para as discussões pré volta às aulas. “A formação de grupos de discussão entre professores trazida pelo documento é muito importante, pois ela enfrenta o paradigma de que professor é uma profissão solitária. Pelo contrário, precisa ter mais conversa com pares e trocar mais experiências”.

 

Além da escuta e participação dos professores, outro aspecto fundamental para um plano de volta às aulas é a construção de uma articulação entre áreas e esferas de governo que sejam ao mesmo tempo coesas, mas preservando a autonomia. Esses foram pontos destacado por Alexsandro Santos, consultor técnico na Câmara Municipal de Educação de São Paulo e ex-professor da rede municipal de São Bernardo do Campo (SP). “Nesse processo de planejamento para o retorno, a gestão central não vai conseguir pensar em todas as escolas, em todos os territórios. A gente precisa entregar a autonomia para as unidade educacionais para desenharem as soluções que cabem em cada contexto a partir das orientações centrais”, ponderou. “Mas é importante entregar às escolas autonomia com suporte, com recursos, com acompanhamento, com assistência técnica”, finalizou.

 


VEJA QUAIS SÃO OS DESAFIOS DA VOLTA ÀS AULAS

  • Impacto emocional nos alunos e profissionais da Educação
  • Abandono e evasão escolar
  • Retorno gradual com precauções com a saúde  
  • Cumprimento da carga horária exigida por Lei  
  • Avaliação diagnóstica e recuperação da aprendizagem  
  • Comunicação frequente com os pais e responsáveis  
  • Articulação entre instituições locais que impactam a política educacional 
  • Contextualização das ações no nível da escola
  • Atendimento intersetorial como esforço perene  
  • Institucionalização de políticas de recuperação da aprendizagem  
  • Fortalecimento da relação família-escola  
  • Tecnologia como aliada contínua

 

BAIXE A NOTA TÉCNICA PARA DEBATER ESSES ASSUNTOS EM SUA REDE DE ENSINO

 

 

Prevenir a evasão

Mesmo antes do espalhamento do novo coronavírus, a evasão e abandono escolar já eram enormes desafios para a Educação Pública. Em 2017, 1,5 milhão de jovens e crianças estavam fora da escola e a taxa de abandono no 1º ano do Ensino Médio foi de 7,8% (veja os dados). No atual contexto, a tendência é que o problema aumente, uma vez que a realidade dos jovens no período de suspensão de aulas é muito diverso, como explicou o professor Ademir Almagro, do Ensino Médio na rede estadual de São Paulo (SP). “As salas de aula sempre foram heterogêneas, mas a tendência agora é ser mais ainda, pois tivemos alunos que conseguiram seguir com aula, outros que seguiram mais ou menos e um terceiro grupo que nem teve acesso às tarefas. Quando voltar as aulas precisamos administrar a situação”, disse.

 

Para a professora Janaína, a prevenção da evasão é mais um motivo para que o planejamento de volta às aulas inicie desde já, ampliando a comunicação com os estudantes e suas famílias. “Precisamos vivenciar esse desafio agora. Como os alunos vão voltar depende de como estamos estreitando a comunicação com eles neste momento, de como estamos mostrando a eles que escolas não são quatro paredes, nem somente a relação física. Depende de mostrarmos que a escola é um conjunto de sentimentos, emoções, sensações e também de aprendizado”, defendeu.

 






 

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