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Eric Hanushek: “A melhoria da Educação deve ser um compromisso nacional”

POR Pricilla Kesley, do Todos Pela Educação 24 Set, 2018

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Educação Já

Pesquisador norte-americano da Universidade de Stanford defende que Brasil não sairá do lugar sem bom desempenho dos seus estudantes

Eric Alan Hanushek é um membro sénior da Instituição Hoover da Universidade de Stanford, do estado da Califórnia, no Estados Unidos, uma prestigiada fundação de pesquisa norte-americana. A fundação mantém um grupo de educadores sêniores para discutir políticas educacionais, o Koret Task Force, do qual ele faz parte.

 

Formado em Ciências pela Força Aérea Americana e PhD em Economia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, em inglês), o especialista tem dedicado sua carreira de 50 anos à pesquisa da relação da Educação com a economia e ao debate das políticas públicas educacionais. Hanushek tem cerca de 215 obras entre livros e artigos publicadas sobre diversos assuntos educacionais, todos eles baseados em análise de dados que tentam encontrar saídas para sistemas educacionais mais eficientes. Muitas das ideias podem ser acessadas por meio da revista norte-americana online Education Next, da Universidade de Harvard, que trata de políticas públicas educacionais.

 

Palestrante na mesa “Educação Já: o que nossas escolas têm a ver com o crescimento da economia?” do evento Educação 360, do jornal O Globo e o Extra, o economista defende que para cada ano que um país negligencia seu sistema de Educação, maior fica o tempo espera por resultados econômicos positivos.

 

O Todos Pela Educação conversou por e-mail com o pesquisador sobre suas mais recentes descobertas acerca do impacto da Educação no crescimento da economia ao redor do mundo.

 

 

 

Todos: Por que a taxa de atendimento educacional não é suficiente para explicar resultados econômicos positivos?

Hanushek: A taxa de atendimento educacional é um indicador muito pobre para medir habilidades individuais. Diferenças na qualidade das escolas e nas influências dos pais e colegas indicam, por outro lado, resultados e desempenhos muito diferentes. Isso é muito fácil de se perceber quando olhamos os dados de muitos países, onde pessoas com o mesmo tempo de escolaridade têm, na verdade, proficiências muito distintas. Essa diferença se repete também em escolas e estados do Brasil.

 

Em suas pesquisas, você faz uma clara relação entre crescimento econômico e qualidade educacional. Como essa relação ocorre e por que esse impacto é tão forte?

A importância da qualidade da Educação vem de diferentes fatores. Primeiro, um capital de conhecimento mais elevado está associado a profissionais mais inovadores. Ou seja: isso significa mais pessoas encontrando caminhos para aumentar a produtividade na economia. Segundo, maior capital intelectual significa que os trabalhadores de um país são capazes de ajustar seus talentos a novas ferramentas e negócios que vêm junto com o desenvolvimento.

 

Alguns de seus trabalhos chamam a atenção para como os estudantes norte-americanos estão ficando para trás em relação às nações desenvolvidas da OCDE e como o custo dessa distância de resultados educacionais reflete-se em perdas econômicas para os Estados Unidos. Como essas perdas ocorrem em países em desenvolvimento e como mudar esse quadro?

Melhorar as escolas e, consequentemente, obter melhorias na economia de um país leva tempo. Essa mudança na Educação requer ajustes na docência e nas próprias escolas, o que não acontece de um dia para o outro. Mesmo que os estudantes estejam aprendendo mais, eles ainda têm de terminar os estudos e entrar no mercado de trabalho. E, como eles ainda estão começando a trabalhar, entrarão no mercado nas categorias mais baixas, o que significa que levará tempo até que eles componham a parte significante da força de trabalho. Por isso, dito de maneira mais simples, a cada ano que um país atrasa a melhoria de suas escolas, maior será a espera até que os resultados econômicos apareçam. Se a população do Brasil quiser ver os ganhos econômicos dentro de um tempo razoável, o desenvolvimento econômico é um processo que precisa começar agora.


Você poderia citar alguns países em que a relação entre a performance dos estudantes e o crescimento econômico é positiva?

A China é um país que se beneficiou do empurrão dado ao aumento da escolaridade. Enquanto muito de seu crescimento inicial veio do ajuste de partes disfuncionais de sua economia, a situação atual revela um crescimento dependente da Educação e das habilidades de seu povo. Os chineses estão começando a colher os ganhos desse impulso para expandir a qualidade e a taxa de conclusão de ensino de suas escolas. Um segundo país que vale a pena citar é a Coreia do Sul, que até uma geração atrás sofria com uma taxa de conclusão escolar limitada. Hoje, assim como os melhores sistemas educacionais do mundo, os coreanos têm elevado número de alunos concluintes e sua economia mostra resultados.

 

Além dos bons resultados em testes, quais outros aspectos fazem parte de uma Educação de qualidade?

A Educação é evidentemente muito mais ampla do que apenas resultados em testes, ainda que eles sejam bons indicadores da qualidade do que está sendo feito pelas escolas. Em uma economia moderna, as pessoas têm de ter várias habilidades, como trabalhar em equipe, ser consciente de seu trabalho ou ainda estar bem-ajustado às mudanças. Algumas dessas características são influenciadas por escolas, outras pelas famílias e até mesmo pelo ambiente. Pesquisas sobre esses fatores de influência estão apenas começando, assim, nós ainda não entendemos o papel deles tão bem quanto entendemos o das habilidades cognitivas.

 

Sua pesquisa se dá em um campo de estudos conhecido como Economia do Conhecimento. O que é isso e qual sua relação com o crescimento econômico?

Chamamos a importância da Educação de qualidade para a economia no campo de estudos econômicos de capital de conhecimento ou capital intelectual das nações. Hoje, as economias modernas estão, em seus períodos iniciais de desenvolvimento, afastando-se cada vez mais da ênfase nos recursos agrícolas e naturais. Elas também estão se distanciando da mão-de-obra focada na produção intensiva. Ou seja, muitas delas estão caminhando para um ponto em que a informação e as habilidades científicas e gerenciais avançadas são essenciais para alcançar melhorias centrais para os resultados econômicos positivos - aumentando, portanto, seu capital intelectual.
 

Considerando a importância da Economia do Conhecimento, o que podemos esperar do relacionamento entre performance escolar e crescimento econômico nas próximas décadas?

Com a introdução da inteligência artificial, automação e robôs, a economia está mudando mais rapidamente do que vimos no passado. Diante desse cenário, a importância da Educação de qualidade torna-se muito mais importante. As pessoas que se ajustarem a essas mudanças e se adaptarem às novas indústrias serão as “vencedoras”. Por outro lado, aquelas que estão presas aos velhos empregos serão as “perdedoras econômicas” do futuro. É essencial que os jovens atuais desenvolvam as habilidades necessárias para essa economia em rápida mudança. Em outras palavras, se no futuro, o Brasil tiver apenas esses trabalhadores insuficientes, sem essas habilidades cognitivas necessárias, será muito difícil para a economia brasileira crescer e acompanhar o resto do mundo.
 

Os resultados educacionais dos estudantes são automaticamente relacionados à qualidade dos professores. No Brasil, os problemas nessa área são inúmeros. Nós não temos, por exemplo, avaliações docentes, o que significa que diferentes performances de ensino convivem lado a lado no nosso sistema educacional. Como mudar essa situação?  

Essa não é uma questão simples e, por isso, é importante buscar várias abordagens. Primeiro, é necessário desenvolver ferramentas de avaliação apropriadas para que a eficácia do professor possa ser julgada de forma justa e precisa. Além disso, essa avaliação deve levar em conta também o que os alunos estão aprendendo com cada professor. Em segundo lugar, é necessário usar essas avaliações para direcionar as melhorias nas políticas públicas. Mas, se mesmo depois de todo esse esforço, alguns professores não melhorarem, é importante levá-los para outros espaços e áreas onde eles possam ser mais eficazes. Por último, é essencial desenvolver sistemas de recompensa de reconhecimento aos melhores professores e que forneçam incentivos para manter esses docentes nas salas de aula.
 

No Brasil, temos um histórico de incapacidade de dar continuidade às políticas públicas, muito por conta da disputa entre as gestões de partidos políticos distintos. Como a ausência de continuidade impacta nos resultados dos alunos e alunas ?
A continuidade dos programas educacionais é fundamental para a melhoria das escolas. Mudar constantemente as políticas leva a professores insatisfeitos, a programas insatisfatórios e, finalmente, a resultados escolares ruins. A melhoria deve ser um compromisso nacional que transcenda as administrações individuais.
Neste momento da história do Brasil, especialmente no período eleitoral, seria extremamente valioso se todos os candidatos endossassem a ideia de que o desempenho dos alunos é a maior prioridade de sua administração. Também seria igualmente importante que eles apoiassem a melhoria com base nos resultados dos alunos. Obviamente, os candidatos diferem em uma série de questões, no entanto, a melhoria da qualidade das escolas deveria ser um consenso.

 

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