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Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho…

POR Por Pricilla Kesley, do Todos Pela Educação 23 Nov, 2018

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Juventudes

Daniel N. Faria, empreendedor social de São Paulo, conta a sua história e fala sobre a importância de se investir na juventude pobre e preta

 

“Eu não tenho medo da morte. Esse medo eu perdi e estou disposto a dar a minha vida por um futuro melhor para meus filhos e de outras famílias da periferia, para defender a cultura  negra e os grupos minoritários”. A declaração valente é a maneira de Daniel N. Faria, professor, mestrando em Ciências Sociais e empreendedor social, bater o pé diante dos discursos preconceituosos que desmerecem a luta do povo negro e periférico. Sua fala combina com a da norte-americana Maya Angelou, também negra e aguerrida, conhecida por ser professora e ativista. Ela é autora do seguinte verso, que data de 1993 e está no poema “A vida não me assusta” (Editora DarkSide Books, 2018): “o medo, se aparecer, só nos meus sonhos existem”.

 

A trajetória de Daniel parece ter sido embalada pelas palavras da poetisa. Nascido no bairro de São Luiz, zona sul de São Paulo, e egresso da rede pública de ensino, o menino negro não se afastou das suas origens; pelo contrário, decidiu fazer literalmente nele seu projeto de vida. Aos 25 anos, ele fundou, no quintal da cada de sua mãe, a Orpas (Obras Recreativas, Profissionais, Artísticas e Sociais), uma organização sem fins lucrativos.

 

“Eu fiz um caminho inverso. Larguei os trabalhos convencionais nas grandes corporações para desenvolver exclusivamente ações de impacto na periferia. Tudo isso para que eu pudesse servir de farol para outros negros que não tiveram consciência da sua negritude, nem do estudo e nem do empreendedorismo como uma forma de emancipação”, reflete, hoje com 38 anos. Ele credita às bem aventuranças de seu trabalho atual aos estudos, à perseverança e às oportunidades.

 

“Servir de farol” é uma metáfora que serve bem a Daniel. O farol é uma uma torre que emite uma forte luz para orientar os navegantes dos mares - e o educador tenta fazer o mesmo, mostrando que a identidade negra é importante. “Muitos jovens e crianças vinham até nós dizendo que tinham vergonha de ser negros, de sua negritude. Nós mostramos que ser negro não é nenhum demérito, o problema está na sociedade que o discrimina”, relembra.

 

A negritude e a periferia são assuntos caros ao transformador social que acredita que as regiões periféricas são ricas em saberes e talentos negligenciados. Para ele, a população dessas regiões precisa se conectar e se fortalecer mutuamente; por isso, a Orpas funciona como um “neoquilombo”, nas palavras de Daniel. “Uma coisa que eu aprendi sendo negro e estando com outros é que a gente tem de estar juntos para sobreviver. Por isso, hoje a Orpas é um um quilombo moderno, com tecnologia, com tablet, com ferramenta, com startup, aceleradora… Temos de ser uma aldeia, todo mundo é responsável pelas crianças, pelos mais velhos. O problema de um é o problema de todos”, explica. “E quando eu falo de juventude negra é mais do que a questão da pigmentação da pele - eu me refiro à juventude pobre como um todo: as pessoas que pegam ônibus lotados todos os dias, que usam os hospitais públicos de má qualidade, etc. Os quilombos têm de receber todas essas pessoas”.

 

O trabalho da Orpas

Situada na zona sul de São Paulo, a ONG investe em atividades profissionalizantes e culturais para crianças, jovens e adultos, além de várias ações dentro do campo da Educação não-formal, como os projetos Construção de Valores, Troféu Periferia, Festival artístico Orpas, TV Quilombo, Gastronomia Periférica, horta comunitária, Universidade Livre de Inovação, entre outros. Daniel não para - afinal, o desafio é grande. “A gente entende que para resolver as questões complexas da periferia, é preciso de ferramentas igualmente complexas”, pondera.

 

A instituição aposta na criação de redes com outros espaços de Educação não-formal - como o sarau Cooperifa -, pois é das referências positivas sobre a negritude e a periferia construídas nesses ambientes que as crianças e os jovens pobres precisam para se sentirem empoderados e capazes de mobilizar suas trajetórias de vida.

 

Educação é de todos e com todos

A vida fora da escola - ou seja, as condições socioeconômicas e culturais das crianças e jovens - é um dos fatores que influenciam a aprendizagem. Esta relação foi comprovada por diversas pesquisas e especialistas. Alunos e alunas de contextos socioculturais mais vulneráveis têm uma maior distância a percorrer quando estamos falando de aprender - os indicadores educacionais de pretos e pardos dão provas das dificuldades enfrentadas por essas populações. É nessas lacunas que a Educação não-formal deve atuar para promover a diversificação de saberes. Para Daniel, que realizou estudos em seis áreas do conhecimento diferentes, entre especializações e graduações, pensar de maneira transversal e diversa é necessário para enfrentarmos os desafios complexos do mundo de hoje.

 

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Esse mesmo espírito norteia as ações da Orpas. A organização defende a complementaridade entre atividades realizadas dentro da escola regular e aquelas que acontecem fora dela. Para Daniel, os professores têm feito um trabalho extraordinário diante das condições que enfrentam, mas não podem carregar a responsabilidade educacional sozinhos.

 

“Vai levar muito tempo para resolvermos os problemas que existem hoje na escola e não podemos perder a geração atual! Nesse cenário, a Educação não-formal têm um papel fundamental para acelerar o processo de qualidade do ensino e preparar os indivíduos para viver no mundo contemporâneo, em especial as regiões mais periféricas. Não se trata de competir com a escola, mas de completar, ajudar e apoiar. Esses trabalhos podem dar suporte a crianças e jovens em temas como os direitos humanos, por exemplo, assunto essencial para formarmos adultos com uma visão mais crítica de mundo e sociedade”, aponta.


 

Juventudes e desafios a milhão

Criado em uma das regiões mais violentas da cidade paulistana, Daniel lembra da juventude na década de 1990 e 2000, que foi marcada por desconcertantes indicadores de homicídio. “É triste dizer mas, na minha infância, um dos passatempos da molecada no domingo pela manhã era encontrar o corpo das vítimas da violência da noite anterior”, conta. “Em 1993, apenas no mês de março, houve mais de 300 homicídios no Jardim Ângela, bairro vizinho ao meu. Esses são números de guerra”.

 

Embora ele admita que, de lá para cá, as coisas tenham melhorado, não dá para comemorar ainda. Para ele, enquanto os índices de vulnerabilidade do povo negro e da periferia persistirem altos e o preconceito existir, o trabalho continua, especialmente no que diz respeito à tal consciência negra. “A juventude negra e da periferia ainda convive com estatísticas humilhantes. Já se fala em extermínio dessa juventude e não é por acaso. Enquanto isso, candidatos a cargos de poder no nosso País referem-se a nós em termos insultantes. Isso é um retrocesso em relação a tudo que tem sido construído por nós e mostra que há mais por fazer: temos de avançar na formação da consciência, precisamos continuar lutando”, defende.

 

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Apesar dos obstáculos, as juventudes atuais têm muito mais ferramentas para fortalecer a consciência negra e periférica do que gerações passadas. Na análise de Daniel, enquanto na década de 1990 as expressões artísticas negras eram criminalizadas, hoje, movimentos culturais como o rap e o hip hop têm atravessado bairros, colocado pessoas de diferentes classes sociais para conversar e aumentado a consciência crítica dos brasileiros sobre a realidade das periferias.

 

O legado da batalha por igualdade está, portanto, com essa garotada que “vem aí a milhão”, como diz Daniel. Mas ele alerta que é preciso impulsionar esses jovens. O empreendedor social destaca a importância de ambientes que fortaleçam a autoestima e a identidade das crianças negras e pobres, e conta suas expectativas para essa geração. “Meus filhos têm a oportunidade de estarem em jantares filosóficos, saraus, rodas de conversa, lugares em que as mulheres e homens negros têm voz e fala. Minha esperança é que as crianças nascidas em ambientes como o nosso, onde há discussão étnico-racial, estejam muito mais preparadas do que eu estava para debater e enfrentar certos assuntos quando tinha a idade deles. São crianças e jovens que têm vivenciado isso desde o berço, estão ouvindo rap para dormir, praticamente”, conclui.



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