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3 em cada 10 brasileiros não conseguem entender este texto

POR Lázaro Campos Júnior, do Todos Pela Educação 12 Nov, 2018

Especiais


Alfabetização

Aumento da escolaridade tem efeito positivo, mas analfabetismo funcional ainda é alto no Brasil

 

A cada 10 brasileiros, três não conseguem resolver operações básicas que envolvam, por exemplo, o total de uma compra, o cálculo do troco ou valor de prestações sem juros quando vão ao supermercado. Para essas pessoas, muitas tarefas do cotidiano são grandes desafios, dificultando a cidadania crítica e uma vida com autonomia.

 

Infelizmente, essa não é uma notícia nova. Pela quarta vez consecutiva, o Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf) mostrou que cerca de 30% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. Realizada pela ONG Ação Educativa e o Instituto Paulo Montenegro, com contribuição da Rede Conhecimento Social e parceria com o Ibope Inteligência, a edição de 2018 registra, ao todo, nove anos de estagnação no combate ao analfabetismo funcional brasileiro. Confira a série histórica no relatório integral.

 

Além do elevado número de analfabetos funcionais, a observação dos percentuais por subcategorias, como mostra a tabela a seguir, revela outro quadro preocupante: entre a população considerada funcionalmente alfabetizada, apenas um em cada 10 brasileiros podem ser considerados proficientes e aptos a analisar, por exemplo, gráficos de duas variáveis.

 

+++COM EDUCAÇÃO, QUEM MAIS PRECISA PODE IR MAIS LONGE

 

 

  Níveis de alfabetismo conforme o Inaf - 2018

Como se vê na tabela, o indicador divide a escala de proficiência de um indivíduo em cinco níveis: analfabeto, rudimentar, elementar, intermediário e proficiente.

 

O grupo de analfabetos funcionais é formado pelos níveis analfabeto e rudimentar. Os analfabetos não conseguem ler palavras ou frases, ainda que identifiquem números familiares, como o de telefone ou preço; já no nível rudimentar, os indivíduos até conseguem encontrar informações explícitas em textos simples, mas não fazer inferências a partir do que leram.


Os chamados funcionalmente alfabetizados pertencem às categorias elementar, intermediário e proficiente. Quem alcança o alfabetismo elementar consegue calcular valor de prestações sem juros e interpretar tabelas simples, por exemplo, mas não interpreta figuras de linguagem como metáforas. O nível intermediário, por sua vez, permite que a pessoa elabore síntese de textos diversos (jornalísticos e científicos) e também saiba trabalhar com porcentagens. Já o proficiente é a única categoria apta a opinar sobre o estilo do autor ao ler algum texto - é o nível mais alto da escala. Veja a tabela completa a seguir.

 

 

 

O estudo também se preocupa em colocar em debate o próprio conceito de analfabetismo e não se baliza pela simples dicotomia analfabeto funcional x funcionalmente alfabetizados. Na verdade, o Inaf compreende o alfabetismo como um processo contínuo, classificando em categorias a capacidade de reconhecer linguagem escrita e dos números desde elementos básicos até as operações cognitivas mais complexas, como criar textos que exigem argumentação. Ou seja: todos nós estamos em constante processo de alfabetização, independentemente do grau de escolaridade.

 

Mais tempo de estudo, melhores resultados

Segundo os dados do Inaf, quanto mais jovem é o grupo populacional analisado, melhores são os índices de alfabetismo, indicando que as gerações mais jovens têm tirado proveito do maior tempo de estudo. Enquanto a taxa de analfabetismo funcional é de 53% entre os mais velhos (entre 50 e 64 anos), esse índice cai para 12% entre a juventude (de 15 a 24 anos).

 

Tal diferença deve-se à crescente expansão do número de crianças na Educação Básica Pública no Brasil. Em 2000, cerca de 95% das crianças brasileiras entre 6 e 14 anos já estavam matriculadas na série adequada à sua idade no Ensino Fundamental, de acordo com o Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2017.

 

Assim, a escolaridade é o principal fator explicativo para o nível da alfabetização, uma vez que, quanto mais alta a escolaridade de uma pessoa, maiores habilidades ela demonstra em lidar com a linguagem. A porcentagem de funcionalmente alfabetizados entre quem cursou Educação Superior (96%) é três vezes maior que entre os que concluíram apenas os Anos Iniciais do Ensino Fundamental (30%). Veja a tabela completa:

 

 

 Distribuição dos níveis de Alfabetismo por escolaridade - 2018

 

 

Apesar dessa forte correlação positiva, ir à escola não é sempre sinal de um alfabetismo proficiente. Conforme os dados da tabela acima mostram, entre a população que já concluiu os Anos Iniciais, 7 em cada 10 ainda são analfabetos funcionais e apenas 1% pode ser considerado proficiente. No Ensino Superior, onde, em tese, todos os estudantes deveriam ter alto nível de alfabetismo para exercer uma vida acadêmica plena, ainda é pequena a proporção dos que atingem a proficiência: apenas 34%.

 

 

Fique por dentro

O analfabetismo funcional está relacionado a diversas dimensões de nossas vidas. Nos próximos dias falaremos de algumas delas:

Analfabetismo funcional e mundo digital

Analfabetismo funcional e a juventude

Analfabetismo funcional e mercado de trabalho



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