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Quase metade dos analfabetos do país já foi à escola

21 de maio de 2018
Segundo Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação, programas de alfabetização de jovens e adultos não tiveram bons resultados e o governo tirou essa questão de foco para investir na universalização do ensino para os mais jovens

Fonte: Valor Econômico




Quase metade das pessoas que não sabem ler ou escrever no país já frequentou anteriormente a sala de aula em algum momento da vida, mesmo que por poucos dias, mostra cruzamento de dados realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a pedido do Valor.

Dos 11,5 milhões de Analfabetos existentes no país no ano passado, 5,3 milhões (46% do total) declaram ter frequentado a escola anteriormente. Dessa fatia, a grande maioria (82% do total) tinha 40 anos ou mais de idade no ano passado, o que corresponde a 4,4 milhões de pessoas.

São consideradas analfabetas as pessoas que declaram ser incapazes de escrever ou ler um bilhete simples, conforme o critério adotado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua).

Para especialistas, os dados mostram o déficit educacional de décadas passadas - as taxas de escolarização cresceram sobretudo a partir dos anos 90 - e também do presente, com resultados deficientes das políticas de alfabetização de adultos.

Além do cruzamento realizado pelo IBGE, a consultoria IDados levantou características adicionais sobre esses parcela da população que não sabe ler ou escrever foi à escola. O resultado revela que mais da metade deles (54%) está na região Nordeste, o dobro do Sudeste (23%).

A consultoria identificou ainda que 82% desses 5,3 milhões de Analfabetos não chegaram a completar a primeira série do Ensino fundamental (antigo primeiro grau). Outros 17% completaram o primeiro ano do Ensino fundamental, mas não conseguiram chegar ao Ensino médio.

"Quem completou o primeiro ano deveria ter sido alfabetizado, mas isso não aconteceu nesses casos. É algo que pode estar ligado à qualidade do Ensino recebido ou ainda a uma dificuldade de aprendizado do próprio estudante", disse Thaís Barcellos, pesquisadora da IDados.

Para especialistas, esse padrão do analfabetismo do país - população mais velha e concentrada na região Nordeste - está ligado ao problema histórico do acesso à educação no meio rural. É um reflexo das grandes distâncias, do trabalho precoce, da pobreza e da desigualdade.

Conforme divulgou o IBGE na sexta-feira, a taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais recuou para 7% no ano passado, de 7,2% no ano anterior. Essa ligeira diminuição representa 672 mil pessoas a menos no país que não sabem ler ou escrever. Em 2012, a taxa era substancialmente maior, de 8,6%.

Apesar da ligeira queda, especialistas criticam as políticas públicas para redução do analfabetismo no país. Priscila Cruz, presidente-executiva do movimento Todos Pela educação, diz que os programas voltados para alfabetização de jovens e adultos não tiveram bons resultados em diferentes governos e foram "varridos para debaixo do tapete".

"O governo fechou a torneira do analfabetismo focando na universalização do Ensino dos mais jovens. A alfabetização de adultos, porém, pouco avança. O que temos hoje, na prática, é que as pessoas analfabetas com mais idade, na medida em que vão morrendo, acabam por reduzir a taxa de analfabetismo", disse Priscila Cruz.

Dados do IBGE corroboram a baixa alfabetização dessa parcela mais velha da população. Dos 11,5 milhões de Analfabetos de 15 anos ou mais, apenas 144 mil declararam que estavam frequentando escola no ano passado. Isso representa apenas 1% do total de pessoas que não sabem ler e escrever no país.

Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, acrescenta que somente 20 mil pessoas de 60 anos ou mais de idade que se declararam analfabetas estão frequentando a escola. "Os indicadores mostram a dificuldade no Ensino de pessoas que não estudaram na faixa de idade correta", disse.

Thais Barcellos, da IDados, acrescenta que muitos desses brasileiros que não sabem ler ou escrever estão atualmente inseridos no mercado de trabalho, em profissão que exigem baixa qualificação. Para ela, esses trabalhadores não teriam expectativa de um "bônus educacional" na renda de voltar para escola.

Com o lento progresso, o Brasil segue distante de atingir a meta oficial de erradicar o analfabetismo até 2024, como previsto no Plano Nacional de educação (PNE), de 2014. O país já deixou de cumprir uma meta intermediária desse mesmo plano, de reduzir o indicador para 6,5% em 2015. O IBGE evita, no entanto, apontar se a meta tende a ser ou não alcançada.

E, mesmo com os avanços conquistados na última década, o Brasil ainda exibe uma das piores taxas de analfabetismo de jovens e adultos (15 anos ou mais de idade) entre os países da América Latina e Caribe. Num ranking de 21 países da região compilados pela Unesco, o país apresenta a 15ª maior taxa, de 7%, a mesma registrada pelo Suriname.

Se o país fosse representado no ranking pela região Nordeste, onde o analfabetismo atinge 14,5% da população, ficaria atrás apenas da Guatemala (19%), a última do ranking. Se fosse representado pela região Sul, onde a taxa de analfabetismo é de 3%, apareceria em sétimo. O ranking é liderado por Cuba, com taxa de analfabetismo zero.

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