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Ensino fora do compasso

21 de maio de 2018
Para Priscila Cruz, presidente do Todos Pela Educação, população não tem indignação à altura dos problemas que a Educação brasileira apresenta

Fonte: O Estado de Minas (MG)




Luciene Xavier com o pequeno Francisco: "Desde cedo pus a educação em primeiro lugar", diz a mãe da criança

O país tem hoje um modelo de educação formal em conta-gotas do início ao fim. Num extremo, crianças são impedidas de começar a vida escolar, porque, simplesmente, não há vagas em Creches ou escolas. No outro, jovens e adultos não conseguem acessar o Ensino superior e garantir formação e diploma. No meio de tudo isso, um Ensino fundamental que patina em seus anos finais e dá sinais claros de derrocada logo no início do nível médio. As conclusões vêm da análise da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) 2017, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgada ontem. Elas se referem a números que pouco avançam ano a ano. Minas Gerais acompanha os passos lentos do Brasil. No estado, onde a luta contra o analfabetismo ainda é desafio, praticamente 20% de jovens na faixa de 15 a 29 anos estão totalmente fora do radar da escola ou do mercado por não estudar nem trabalhar.

“O Brasil tem muito a evoluir. E sentimos isso de forma muito lenta, pois dados de educação são mais estruturais e não variam tanto de um ano para outro. Em Minas, não há grandes movimentos e significados estatísticos de 2017 em relação a 2016”, avalia o analista do IBGE Gustavo Fontes. Os dados do ano passado mostram que quase metade das crianças mineiras de até 5 anos estão fora da escola. São 717,5 mil (47,5% de um total de 1,5 milhão de pequenos dessa idade). O índice é puxado pela faixa etária de até 3 anos, que concentra a maior quantidade de meninos em casa (96%). A taxa de escolarização nos primeiros anos de vida é de apenas 32% e os motivos variam entre a falta de vagas em Creche e a opção dos pais de não pôr o filho na escola. De 4 a 5 anos, 94% estão no Ensino formal.

A educação é obrigatória no país justamente a partir dos 4 anos. “Chama a atenção o aumento do número de pais que não querem o filho na escola”, observa a presidente-executiva do Movimento Todos pela educação, Priscila Cruz.

Em Minas, 69,1% das crianças até 5 anos estão fora das salas de aula por esse motivo. No país, para 64,1% (2,7 milhões) das crianças de até 1 ano a não frequência se deu por opção dos pais – porcentagem que era de 61% em 2016. Esse motivo também se mostrou importante, mas em menor proporção, para as crianças de 2 e 3 anos, 53% (1,4 milhão), em 2017. Estimou-se ainda que 34,7% (897 mil) das crianças de 2 e 3 anos e 21,1% (903 mil) das crianças de até 1 ano não frequentavam escola por dificuldade de acesso, seja por falta de vaga ou ausência de escola na localidade. “Acho como algo positivo, no que se refere à faixa de até 3. O país está em crise, desemprego alto, logo, a mãe pode estar em casa e não precisa levar para Creche. Pode ser um efeito colateral da situação econômica do país, principalmente na faixa de até 1. A parte positiva é a criança ficar com a família, já que as Creches não são boas no Brasil”, afirma.

O pequeno Luís Bernardo, de 3 anos, faz parte do um terço dos mineirinhos que foram para a sala de aula nos primeiros anos de vida. A mãe dele, Bárbara Mascarenhas, considera a educação do filho uma prioridade e o pôs ainda bebê na escolinha. “O levei pela primeira vez quando ele tinha 1 ano e 2 meses”, conta. Mãe de Francisco, de 5 anos, e de Maria Antonieta, de 2, Luciele Xavier, de 35, também integra esse universo de poucos. Formada e doutorada em física, parou de trabalhar quando estava grávida do menino e resolveu se dedicar à criação dos filhos desde então. “Desde cedo pus a educação em primeiro lugar.”

MELHORA O que começa a passo lentos, ganha fôlego na fase seguinte do aprendizado, quando o Ensino fundamental alcança taxa de escolarização de 99% em Minas e frequência de 97,8% das crianças de 6 a 14 anos. Mas, as distorções começam a dar sinais depois de um período de apenas quatro anos. Enquanto 97,2% das crianças de 6 a 10 anos frequentam o 1º ao 4º ano na idade certa, nos anos seguintes, do 5º ao 9º, o percentual de Alunos com a idade correta para a etapa (11 a 14 anos) cai para 90%. Ou seja, no estado, 2,8% das pessoas de 6 a 10 anos e 10% daquelas com idade entre 11 e 14 anos estavam atrasadas em relação à etapa de Ensino que deveriam cursar ou haviam evadido do sistema de Ensino brasileiro, segundo o IBGE.

O atraso se acentua ainda mais na fase seguinte, o Ensino médio, tido como o grande gargalo do país. O percentual de adolescentes entre 15 e 17 anos que estão com idade adequada para a série que cursam despenca para 75,1% em Minas Gerais. Em nível nacional, essa média é ainda menor: 68,4%. A quantidade de estudantes também sofre impacto: independentemente da série cursada, 90,3% dos jovens de 15 a 17 anos estão nas salas de aula mineiras, enquanto no Brasil, são 87,2%.

Entre as mulheres dessa faixa etária, no estado, 80,4% frequentavam o Ensino médio no tempo correto. Entre os homens, a taxa ficou em 70,1%. Quando observadas as taxas entre brancos e pretos ou pardos, o percentual é de 80,2% e de 72,4%, respectivamente. “A diferença de homens e mulheres é a mesma de brancos e pardos. Há uma sobreposição que vimos por outras pesquisas que a pior situação, hoje, é ser homem negro. Essa sobreposição tem diversas outras consequências para a sociedade brasileira: impacto na questão da empregabilidade e renda futura ou na segurança pública, por exemplo. A pior configuração hoje para estar fora do Ensino médio é ser menino, negro e pobre. A escola está perdendo a corrida para outras situações nas quais esse menino está emaranhando”, ressalta Priscila Cruz. (Colaborou Sílvia Pires)

Palavra de especialista

Priscila Cruz presidente-executiva do Movimento Todos pela Educação:

Falta indignação

“No Brasil não há desculpa de não se conhecer o problema nem ter diagnóstico. O monitoramento de todas as etapas do Ensino é muito completo e sofisticado. O que falta é o uso desse diagnóstico para termos, primeiro, uma verdadeira indignação. A população não tem indignação à altura do que isso significa. Não há senso de urgência por parte dos governos nem cobrança da sociedade e, assim, é muito difícil mudar. Ser difícil não significa impossível, porque temos resultados em algumas ilhas de excelência no Brasil. O problema são estadistas preocupados com o resultado dele. Os tempos da política e da educação não estão sincronizados. Esse desajuste faz com que isso ocorra. ” 


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