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"Minha mãe tinha medo por mim": quando a escola não é um lugar seguro

28 de maio de 2018
Bruno Romão, homem trans, fala de intolerância na trajetória escolar

Fonte: Todos Pela Educação

Arquivo pessoal




Por Pricilla Kesley, do Todos Pela Educação

 

Bruno Romão Valino, 25 anos, sabe o que é chegar o dia em que acorda decidido a não estudar mais. Foi assim em 2008. Em uma fase da vida na qual qualquer garoto de 18 anos estaria olhando para o futuro, Bruno mantinha os olhos grudados no presente: passava o tempo todo olhando para todos os lados, na tentativa de se prevenir da próxima agressão. Àquela altura, estava tão cansado das humilhações, que entre sua integridade e a escola, estava disposto a escolher a primeira.

 

Ex-aluno de escola pública, Bruno dá rosto e corpo aos dados de um tipo muito específico de evasão escolar. Embora ainda não existam estatísticas que revelem o peso da violência escolar na desistência dos estudos, os especialista apontam que fatores como bullying, desequilíbrio emocional e clima de insegurança são decisivos na hora de interromper a trajetória escolar. Esses são aspectos especialmente críticos para os estudantes marginalizados também fora dos muros da escola, como a comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros).

Acostumados a histórias de extrema dificuldade vindas de regiões remotas do Brasil, situações de sofrimentos que acontecem nos centros urbanos muitas vezes passam despercebidas quando falamos de evasão escolar. Bruno fez parte dessa lista durante os anos em que sofreu bullying, discriminação e violência na escola - anos em que teve que de aprender não apenas os conteúdos curriculares mas também como se proteger das agressões.

 

“Eu guardava tudo para mim. Minha mãe ficou finalmente sabendo depois de muitos anos, quando, no 3° ano do Ensino Médio, após uma briga, eu acabei roxo”, relembra. “Ela passou a ter medo por mim”.

 

Desumanizados
A narrativa de medo e confusão de Bruno começou, aliás, muito antes do Ensino Médio. Durante o Ensino Fundamental II, enquanto tentava entender a si mesmo - Bruno nasceu com o sexo biológico feminino, mas se identifica com o gênero masculino -, teve de lidar com boatos maldosos e as agressões verbais que o desumanizavam. “Eu ainda não sabia direito como me identificar e era hostilizado pelos meninos, por não ser feminina, e por pelas meninas, por ser masculina e gostar de meninas. Chegaram a jogar comida na minha cara… Mas, o que doía mais eram as palavras: cheguei a ser chamado de lixo, de animal”, lamenta.

 

Bruno não é um caso isolado. Pelo contrário, ele integra a população de 73% dos estudantes LGBT que, em 2016, relataram terem sido agredidos verbalmente na escola, um local que, a princípio, deveria ser voltado ao desenvolvimento humano e à aprendizagem. Apesar da segurança e do acolhimento serem pré-requisitos para uma escola de qualidade, como aponta o documento Agenda Sustentável 2030, das Nações Unidas, os jovens que se expressam dentro do espectro da diversidade passam pelos portões de entrada do colégio sem nenhuma garantia. Na pesquisa Viver em São Paulo: Diversidade, da Rede Nossa São Paulo e do Ibope Inteligência, entre os locais públicos da cidade em que situações de preconceito de gênero ou orientação sexual são mais frequentes, as escolas/faculdades aparecem em terceiro lugar.

 

Após concluir o Ensino Fundamental, Bruno seguiu para a E.E. Prof. Miguel Sansigolo, na zona leste da capital paulista, onde encontrou uma comunidade de alunos na qual se viu acolhido pela primeira vez em muitos anos. “Eles me disseram ‘você um de nós’”, conta. “Em situações de agressão, eles me abraçavam e eu entendi ali o que era diversidade e opção sexual, coisas que ninguém havia me explicado antes”.

 

A situação narrada por Bruno é, infelizmente, típica no cotidiano das escolas brasileiras. O País é o último da lista das nações da América Latina quando o assunto é educação sexual na escola. “Nunca tive qualquer aula sobre sexualidade, aprendi pelos meus próprios meios sobre orientação sexual”, revela o rapaz.

 

Apesar de o combate a qualquer tipo de discriminação fazer parte do Plano Nacional de Educação (PNE) e da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a Educação sexual na legislação educacional brasileira frequentemente está ligada às doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e a à gravidez precoce, deixando de lado as expressões de afetividade não heteronormativas. Além disso, os termos orientação sexual e gênero foram retirados da BNCC. Especialistas criticaram a medida que ocorreu em 2017 e chamaram a atenção para a importância de se dar visibilidade para as minorias que sofrem violência na escola.

 

No caso de Bruno, nem mesmo fazer parte de um grupo foi o suficiente para protegê-lo de uma cultura de intolerância e impunidade que violenta as minorias. Mesmo na nova escola, as agressões continuaram, até que decidiu interromper os estudos. “Como eu poderia estudar daquela maneira? Eu não estava bem”, explica. “Mas foi só por um tempo”, conta. O rapaz sabia que seu caminho passava pela Educação. Meses depois, voltou para a modalidade da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e pôde finalmente se concentrar em seguir em frente, rumo ao sonho de ser bombeiro.

 

A importância do professor
Da época dos episódios infelizes, Bruno guarda uma lembrança em especial: a da professora de português do Fundamental II. Valéria tinha “os gestos certos”, nas palavras do rapaz. “Ela foi mesmo um anjo. Conseguia identificar quando eu ficava deprimido e não conseguia prestar atenção nas aulas. Quando ela não sabia o que dizer, ela apenas me abraçava. Aquilo significava muito”, relata.

 

Hoje, tendo o apoio da família, quase bombeiro e em meio ao processo de transição de gênero, Bruno se sente seguro para olhar para trás e aconselhar o menino que foi. “Se eu pudesse desejar algo para quem está passando por situações como aquelas pelas quais passei, gostaria que eles encontrassem mais ‘Valérias’. Que houvesse menos paredes para pessoas como nós e que toda escola tivesse algum profissional trans”, defende.

 

Apesar dos pesares, Bruno diz não guardar mágoas. “Aquelas pessoas não me entendiam, e acho que muita gente ainda não entende. Não quero devolver violência com violência, por isso as escolas deveriam falar mais disso”, pondera. E finaliza: “Ser diferente é normal. Que graça teria se fosse todo mundo igual?”.


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