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Congresso Jeduca: "Precisamos colocar a Educação em outras editorias jornalísticas"

30 de junho de 2017
Na avaliação de Priscila Cruz, em tempos de crise, o jornalismo tem o importante papel de questionar os gestores sobre a descontinuidade das políticas públicas de Educação

Fonte: Todos Pela Educação

Congresso Jeduca:




Nos dias 28 e 29 de junho ocorreu, em São Paulo capital, o I Congresso da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), organização fundada em 2016, com o objetivo de qualificar a cobertura jornalística na área. O evento, que contou com 18 mesas de debates e 20 especialistas, proporcionou aos participantes (jornalistas, profissionais que trabalham com a temática e estudantes de jornalismo) um mergulho intenso em dados, políticas públicas e diretrizes sobre as especificidades do sistema educacional brasileiro. Além disso, palestrantes internacionais abordaram, em uma perspectiva comparativa, os índices educacionais de diferentes países.

Para Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação, e uma das principais fontes especialistas na área, a cobertura jornalística de Educação brasileira teve um salto de qualificação ao longo dos últimos 5 anos, mas ainda há patamares a serem galgados, como “ganhar as outras editorias para a causa da Educação”, conforme apontou durante o evento. “Tudo está relacionado à Educação, os jornalistas precisam lutar para que as matérias de economia, desenvolvimento, saúde e tantas outras também passem a incluir um olhar para o ensino”, defendeu.


A Educação em tempos de incerteza
O quadro político e econômico brasileiro tem sido, desde 2015, um dos mais desafiadores para o País ao longo de sua história. Para agravar a complicada conjuntura, a Emenda Constitucional 95, de 2016, conhecida como PEC do Teto dos Gastos, colocou um limite para as despesas do Governo Federal nos próximos 20 anos.

Esse cenário preocupa especialmente a área da Educação, um setor que para atingir equidade e qualidade requer boa gestão e recursos crescentes, conforme defendeu Priscila Cruz durante a mesa “A Educação em tempos de incerteza”.
Daniel Cara, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, uma das instituições que apoiaram e participaram da elaboração do Plano Nacional de Educação (PNE), também destacou a importância da sociedade civil – os jornais como atores importantes nesse grupo – para defender a prioridade da Educação em qualquer gestão, independentemente do partido político.

A mesa recebeu ainda Alessio Costa Lima, presidente da União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), e Idilvan Alencar, presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed). Os representantes das gestões municipais e estaduais abordaram a temática do financiamento e orçamento na área da Educação, conhecimento essencial para uma cobertura jornalística de qualidade. Eles ressaltaram a necessidade de os profissionais de jornalismo terem conhecimento da legislação que determina a divisão de recursos entre os entes federados e das responsabilidades administrativa de cada um deles.

Priscila concordou com os gestores. Para ela, apesar do avanço na cobertura, falta ainda um olhar mais qualificado para as políticas públicas, considerando-as como medidas de longo prazo. “Os jornalistas precisam questionar mais as fontes do governo sobre o porquê de cancelar uma política de sucesso. Essa política foi avaliada, ela não poderia ser ajustada? ”, exemplificou.


Base Nacional: desafio de abordagem e próximos passos
Ao lado da turbulência política e econômica, as políticas públicas de escala, que impactam todas as redes de ensino, também são fonte de ansiedade para a sociedade civil, dentre elas a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). É nesse espaço de insegurança que reside o papel fundamental dos profissionais de jornalismo, que devem elucidar os assuntos técnicos relacionados à BNCC e colocar na agenda pública o currículo escolar. Essa foi a temática da mesa da “Base Nacional: desafio de abordagem e próximos passos”, no dia 28.

O debate contou com a presença de Cesar Callegari, ex-secretário municipal de Educação de São Paulo e membro do Conselho Nacional de Educação (CNE), a ex-secretária municipal de Educação de São Bernardo do Campo, e Paulo Carrano, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador no Observatório Jovem do Rio de Janeiro e membro da diretoria da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped).

Callegari criticou a falta de articulação entre o documento que servirá de base para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental e aquele que determinará os conteúdos básicos do Ensino Médio. Apesar disso, ele destacou a importância dos documentos. “Embora a BNCC não seja perfeita, ela é um passo fundamental para a Educação Básica; essencial para a formação de professores, sistemas de avaliação e produção de livros didáticos”, afirmou.

Essa também foi a visão apresentada por Cleuza. Os profissionais da mídia, defendeu ela, devem compreender a importância histórica do documento e produzir conteúdos que esclareçam os desafios que vêm pela frente. “Se foi difícil construir a Base, mais complicado será implantá-la. O papel do jornalismo nesse processo é abordar as dificuldades da implementação da BNCC”, disse.

Contrário à base, Carrano criticou o perigo da generalização que se esconde sob uma base curricular e colocou à classe jornalística a importância de uma abordagem que ouça atores de diferentes espectros político-ideológicos. O pesquisador também destacou a premência de se abordar a interface entre juventude e Educação. “Na mídia, a representação é muito importante, é uma disputa de poder e imagem. O jornalista é um produtor de representações e ele deve dar espaço ao jovem e sua relação com a escola”, defendeu.


Editores e a Educação como notícia
O evento também contou uma uma mesa para discutir os caminhos que o jornalista deve seguir para valorizar e ampliar a cobertura do tema da Educação nos veículos de comunicação, uma vez que ele disputa, de forma contínua, espaço com uma variedade de notícias factuais. Sob a mediação de Ricardo Falzetta, gerente de conteúdo do Todos Pela Educação e jornalista com uma carreira de mais de 15 anos de atuação na área de Educação, a mesa “Editores e a Educação como notícia” foi composta por Eduardo Scolese, da Folha de S. Paulo, Paula Miraglia, do Portal Nexo, e Nélio Horta, da Rede Globo.

Para Eduardo Scolese, repórteres que cobrem o tema devem questionar as políticas públicas; buscar dados, confrontá-los, e também conhecer de perto a realidade das escolas, vivenciá-la. Na sua visão de antropóloga, Paula Miraglia aproveitou a ocasião para fazer uma reflexão sobre o papel do especialista como fonte. É preciso “deixar o especialista surpreender o jornalista”, entender que sua função não se resume a corroborar o que um dado supostamente mostra, ele precisa de espaço para pontuar suas análises. Scolese acrescentou à reflexão que é de suma importância sempre apurar a reputação dos institutos e entidades que divulgam pesquisas e a metodologia utilizada por eles.

Miraglia enfatizou que a Educação não pode ser tratada apenas como escudo contra a violência, trata-se de um direito constitucional. Para ela, a contextualização do tema não pode se limitar a este aspecto, pois a Educação nunca é uma narrativa isolada.

Já Nélio Horta, ponderou que a temática precisa ser bem desenvolvida pelos profissionais de comunicação, é preciso levar em conta que quando se trabalham temas paralelos é necessário ter cautela para não parecer que aquele “recorte” deve ou não ser um exemplo a ser seguido. Utilizou um bom exemplo para resumir sua observação: quando se está produzindo uma reportagem sobre uma determinada escola em São Paulo é preciso contextualizar, de maneira que quem está no interior do Piauí, por exemplo, entenda que se trata de uma realidade distinta e que aquilo não é uma sugestão de como deve ou não deve ser o espaço escolar.

No final, os três debatedores reconheceram que, em seus veículos, a Educação precisa ganhar mais evidência. Scolese mencionou a crise financeira e citou as dificuldades em relação ao número de repórteres. Paula citou ferramentas recém desenvolvidas por sua equipe, e que fazem recortes interessantes para a área da Educação, e que poderiam ter sido mais destacadas. “Tive muitas ideias aqui, durante nossa conversa, e já vou levá-las para a redação”. Horta afirmou que “sempre estaremos devendo”, mas que é alimentado constantemente pelas informações que troca com a equipe do Globo Educação e da Fundação Roberto Marinho.
 


Bases de dados de Educação do terceiro setor
Indispensáveis para a construção de boas matérias jornalísticas, as ferramentas de dados também foram tema no evento. Na mesa “Bases de dados de educação do terceiro setor” foram apresentadas as plataformas Observatório de Educação – Ensino Médio e Gestão, do Instituto Unibanco, Qedu, da Merrit e Fundação Lemann, e Observatório do PNE, coordenado pelo Todos Pela Educação junto a 23 organizações parceiras.

Marcelo Pessoa, do Instituto Unibanco mostrou aos participantes como navegar pelo site, que ainda está na versão Beta, além de apontar suas outras áreas como “Luz, Câmara, Gestão”, onde é possível encontrar depoimentos de personalidades importantes da área de Educação.

Dorly Neto, consultora da Fundação Lemann, demonstrou as funcionalidades e exemplos de abordagens jornalísticas a partir de dados disponibilizados pelo Qedu.

Vanessa Souto, coordenadora de projeto dos Todos Pela Educação, destacou a importância do Observatório do PNE para acompanhar o cumprimento do plano. “É importante que o PNE seja a grande agenda norteadora de políticas educacionais", pontuou. Ela também explicou como buscar dados na plataforma e mostrou como a imprensa utiliza a combinação de dados disponíveis para reportagens.

Confira os vídeos das mesas do primeiro dia:

A Educação em tempos de incerteza

Base Nacional: desafio de abordagem e próximos passos

Como conciliar acesso e qualidade na Educação Infantil

Educação 2030


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